A menina Sharbat

novembro 18, 2009 por Stefanie Loureiro  
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Em sua edição de junho de 1985, a revista americana National Geographic publicou aquela que se tornaria uma de suas capas mais famosas. Ela trazia a foto de uma menina afegã de olhos verdes, dona de uma beleza tão mais extraordinária porque emoldurada por cabelos desgrenhados e um xale rasgado. A imagem quase bíblica, feita no ano anterior, em um campo de refugiados no Paquistão, correu o mundo como síntese do sofrimento de um país antiqüíssimo, devastado por uma guerra que lhe estava matando a esperança – na época, contra o invasor soviético, instalado no Afeganistão desde 1979. O encontro entre a menina e o fotógrafo Steve McCurry foi breve. Tirada a foto, ela sumiu em meio à multidão andrajosa, sem nem mesmo revelar seu nome.Em janeiro passado, com o Afeganistão novamente nas manchetes, McCurry voltou ao país com a missão de achá-la. Sua busca começou no mesmo campo de refugiados que visitara em 1984. Cerca de dois meses depois, ele finalmente se viu frente a frente com Sharbat Gula (esse é o nome dela), hoje uma mulher precocemente envelhecida.

Sharbat voltou a ser capa da National Geographic na edição que chegou às bancas em abril de 2002. Só que, desta vez, escondida sob uma burca e com a foto de 1984 nas mãos. A chamada da revista é: “Encontrada: dezessete anos depois, a história de uma refugiada afegã”. a-menina-afega

Sharbat tem no máximo 30 anos – ninguém sabe ao certo sua idade –, mas seu rosto está crivado de rugas e manchas. Somente o olhar lembra a menina de um passado não tão distante assim. Ela perdeu a juventude em meio a conflitos que, nos últimos 23 anos, mataram 1,5 milhão de pessoas no Afeganistão e fizeram quase 4 milhões de refugiados. Sharbat ficou órfã de pai e mãe por volta dos 6 anos, durante um bombardeio soviético que riscou do mapa o vilarejo em que morava. Sem nada mais a perder, ela e quatro irmãos foram levados pela avó ao Paquistão. Para alcançar o país vizinho, caminharam uma semana inteira, afligidos por tempestades de neve. Ao longo de quase dez anos, calcula-se, ela viveu num campo de refugiados. De volta ao Afeganistão do Talibã, em meados da década de 90, ela se casou. Seu marido trabalha numa padaria da cidade paquistanesa de Peshawar, próxima à fronteira afegã. Pelo trabalho, o rapaz recebe o equivalente a 1 dólar por dia. Vítima de asma, Sharbat não suporta o misto de calor e poluição que impregna o ar de Peshawar. Por isso, ela vive a maior parte do tempo na região montanhosa de Tora Bora, que serviu de esconderijo para centenas de terroristas da Al Qaeda e foi duramente castigada por bombardeios americanos no ano passado. Sharbat mora com suas três filhas – Robina, de 13 anos, Zahida, de 3, e Alia, de 1. Uma quarta criança morreu ainda bebê. Apesar de a burca já não constar do figurino obrigatório, ela a usa com prazer quando vai à rua. “É uma roupa bonita para vestir, não é uma maldição”, diz. Pertencente à etnia patane, majoritária no país e da qual saíram os talibãs, Sharbat sente-se ainda mais desconfortável sob a nova ordem. “Quando o Talibã dominava, a vida era melhor. Pelo menos havia paz e ordem.”

O encontro com McCurry foi tão rápido quanto o primeiro. “Expliquei que muitas pessoas se emocionaram com a foto e que, por causa dela, gente de todo o mundo decidiu fazer trabalho voluntário em campos de refugiados no Afeganistão”, diz o fotógrafo. Ele ficou com a impressão de que a repercussão causada pela foto publicada em 1985 não a comoveu muito. Ao ver pela primeira vez sua imagem quando menina, Sharbat ficou envergonhada por causa dos rasgos no xale, causados por fagulhas da fogueira em que cozinhava. Semi-analfabeta, seu grande sonho é que suas filhas possam estudar. “Eu queria terminar a escola, mas não foi possível. Fiquei triste quando tive de sair.” Para ser fotografada, ela teve de pedir permissão ao marido. Para comprovar que Sharbat Gula era de fato a menina afegã que estampou a National Geographic de junho de 1985, a direção da revista submeteu as duas imagens a um legista do FBI, a polícia federal americana, e ao inglês John Daugman, o inventor do método de identificação pela íris. Certeza sedimentada, Sharbat virou capa. Foi a segunda foto que ela tirou em toda a sua vida.

Texto adaptado da Veja On-line

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The Carpenters

novembro 16, 2009 por debora  
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Os Carpenters foram uma dupla musical da década de 1970, composta pelos irmãos Karen (1950-1983) e Richard Carpenter (1946). Com seu estilo melódico, eles levaram à parada de sucessos muitas canções no Top 40 da música americana, tornando-se representantes do soft rock e se incluindo entre os artistas mais representativos da década.
Biografia
Antes dos Carpenters
Nascidos em New Haven, Connecticut, Estados Unidos, (Richard Lynn Carpenter em 15 de outubro de 1946, e Karen Anne Carpenter em 2 de março de 1950), os irmãos Carpenter mudaram-se com seus pais para a Califórnia no verão de 1963 e se estabeleceram em Los Angeles, no subúrbio de Downey. Richard desenvolveu seu interesse pela música desde criança, tornando-se um prodígio do piano (ele próprio declararia mais tarde que gostava muito de ouvir a coleção de discos de 78rpm de seu pai). A mudança para o Sul da Califórnia foi feita com vistas ao favorecimento de sua carreira. Karen, enquanto isso, não manifestou seus talentos musicais até a escola secundária, quando se juntou à banda e logo assumiu a bateria, após ter tentado infrutiferamente tocar outros instrumentos musicais.
Década de 1960
Durante a metade dos anos 1960, Richard e Karen tentaram lançar uma carreira musical, mas não obtiveram sucesso até o final dessa década. Em maio de 1966 Karen se juntou a Richard em uma sessão musical noturna no estúdio de garagem do baixista Joe Osborn, onde Richard estava para acompanhar o teste de uma vocalista. Quando lhe pediram que cantasse, Karen o fez e ganhou um contrato de curta duração como artista-solo no selo de Osborn, o Magic Lamp. O single produzido incluiu duas das composições de Richard, “Looking for Love” e “I’ll Be Yours”, mas o selo logo acabou. Durante este período a dupla, com o baixista Wes Jacobs, formou o Richard Carpenter Trio em trio de jazz instrumental, que ganhou a Batalha das Bandas no Hollywood Bowl em 1966, mas foi recusado pela RCA, que duvidou do potencial comercial da banda.
Os irmãos logo se juntaram a quatro estudantes de Música da Universidade do Estado da Califórnia em Long Beach e formaram o sexteto Spectrum. Embora fizessem apresentações, não fecharam contrato com nenhuma gravadora. Mas a experiência se mostrou produtiva: Richard encontrou em seu colega John Bettis um letrista para suas composições.
Após o fim do Spectrum, os Carpenters decidiram continuar como dupla com Richard no piano, Karen na bateria e ambos como vocalistas. Contratados para tocar em uma festa no lançamento de um filme em 1969, a estrela desse filme, Petula Clark, apresentou-os ao músico e dono da A&M Records Herb Alpert, com quem a dupla assinou um contrato pela gravadora. Seu primeiro disco, Offering, tinha várias composições de Richard no tempo Spectrum e uma canção de muito sucesso dos Beatles, Ticket to Ride, que se transformou em um sucesso dos Carpenters a ponto de se tornar o título do álbum outrora denominado Offering, o que aumentou as vendas.
Década de 1970
Os Carpenters estouraram nas paradas de sucesso em 1970 com a canção de Burt Bacharach e Hal David, (They Long to Be) Close to You (do disco de mesmo nome), que atingiu o topo e nele ficou por quatro semanas. A gravação seguinte, “We’ve only just begun”, atingiu o segundo lugar e seu tornou o maior sucesso da dupla no final de 1970.
Vários sucessos mantiveram a dupla nas paradas no início da década, como “For All We Know”, “Rainy Days and Mondays”, “Superstar”, Hurting Each Other”, “It’s Going to take some time” e “Goodbye to Love”, “Sing” Yesterday Once More”, dos álbuns Carpenters (1971), A Song for You (1972) e Now and Then (1973). “Top of the World” atingiu o topo das paradas em 1973. O álbum com os melhores sucessos entre 1969 e 1973 se tornou um dos mais vendidos da década, com mais de 7 milhões de cópias apenas nos Estados Unidos.
Durante a primeira metade dos anos 1970, a música dos Carpenters foi um elemento principal das paradas Top 40. O duo produzia um som diferente com a voz de contralto de Karen no vocal principal, e ambos os irmãos nos vocais de fundo com harmonias densas. Ao seu papel como vocalista, pianista, tecladista e arranjador, Richard adicionou o de compositor em várias canções.
Para promover suas canções, a dupla manteve uma inacreditável agenda de apresentações e aparições na televisão. Em 1973, aceitaram um convite para se apresentar na Casa Branca para o presidente Richard Nixon e o chanceler da Alemanha Ocidental Willy Brandt.
A popularidade dos Carpenters freqüentemente confundia os críticos. Com suas baladas doces e suaves, muitos diziam que era o som do duo era meigo, piegas e meloso, enquanto a indústria fonográfica os premiava com Grammys (foram três).
Entre 1973 e 1974 não houve muito tempo para lançar material novo. Como resultado, os Carpenters não lançaram disco novo em 1974. No início de 1975 fizeram uma versão de um sucesso das Marvelettes, “Please Mr. Postman”, que atingiu o primeiro lugar das paradas mas foi último a tingir esse posição. No mesmo ano “Only Yesterday” foi lançada, e entre 1975 e 1976 foram lançados os discos Horizon e A Kind of Hush. Mas a essa altura as canções não faziam mais o sucesso de antes, tanto que “Goofus” nem chegou ao Top 40.
O álbum mais experimental Passage, lançado em 1977, representou uma tentativa de se aventurar por outros gêneros musicais com canções como “Don’t Cry for me Argentina” da “ópera rock” Evita, “All You Get Form love is a Love Song”, uma mistura de rock latino, com calipso e pop, além da intergaláctica “Calling Occupants of Interplanetary Craft”, com acompanhamento de coral e orquestra.
Mesmo com os insucessos na parada americana, a dupla continuou a ser popular. Em 1978, foi lançado o álbum natalino A Christmas Portrait se tornou um clássico de Natal (houve um outro disco natalino, denominado An Old-Fashioned Christmas, lançado em 1984, após a morte de Karen). Os Carpenters também fizeram três especiais de televisão, dos quais participaram outros artistas como Ella Fitzgerald e John Denver.
No meio da década de 1970, o excesso de turnês e as longas sessões de gravação começaram a cobrar caro da dupla o esforço e contribuíram para as dificuldades profissionais enfrentadas no final dessa década. Karen fazia dietas obsessivamente e desenvolveu anorexia nervosa, a qual se manifestou pela primeira vez em 1975, quando uma exausta e enfraquecida Karen foi forçada a cancelar apresentações no Reino Unido e no Japão. Richard, enquanto isso, desenvolveu dependência de soníferos, que começaram a afetar seu desempenho no final dos anos 1970 e levaram ao fim das apresentações ao vivo da dupla em 1978 e à sua internação em uma clínica.
No início de 1979, Karen, não desejando permanecer parada enquanto seu irmão se recuperava na clínica, decidiu gravar e lançar um álbum solo com o produtor Phil Ramone em Nova York. Seu disco (Karen Carpenter) tinha um estilo mais adulto e disco, em um esforço para mudar sua imagem. O resultado do projeto teve uma recepção morna de Richard e os executivos da A&M Records e no início de 1980 Karen primeiramente hesitou, abandonando por fim seu disco solo, que seria lançado apenas em 1996, 16 anos depois, 13 após sua morte. Karen preferiu lançar outro disco com Richard (já recuperado da dependência de soníferos), que se transformou no álbum Made in America, lançado em 1981.
Os problemas pessoais, entretanto, diminuíram as possibilidades de um retorno às paradas e Karen teve um casamento que não deu certo com Thomas Burris, a separação ocorreu um ano depois. Em 1982, Karen foi a Nova York procurar tratamento com o psicoterapeuta Steven Levenkrom para suas desordens alimentares decorrentes da anorexia nervosa, voltando naquele mesmo ano disposta a refazer sua carreira. Ela rapidamente ganhou 5 quilos em uma semana, o que aumentou os danos a seu coração, resultado de anos de dieta e abusos (especialmente - conforme se diz - com o uso do Xarope de Ipecac, um forte emético - para induzir vômito). Em 4 de fevereiro de 1983, Karen sofreu uma parada cardíaca na casa de seus pais em Downey e teve sua morte declarada no Hospital Memorial de Downey aos 32 anos. Karen, vestida de rosa, foi posta em um caixão aberto. Entre os que foram ao seu funeral estavam suas melhores amigas, Olivia Newton-John e Dionne Warwick.
Depois dos Carpenters

Após a morte de Karen, Richard continuou a produzir canções da dupla, inclusive muito material inédito e várias coletâneas, tendo lançado o disco Voice of the Heart no final de 1983. Sua dedicação em proteger a imagem dos Carpenters e o legado de gravações gerou muitas críticas, principalmente quando ele impediu em 1987 o lançamento do curta-metragem Superstar: a História de Karen Carpenter, de Todd Haynes, que se utilizou de bonecas Barbie para mostrar a morte precoce de Karen. Embora a crítica tenha dito que tudo foi mostrado de forma um tanto compassiva, a história mostrada não é nada favorável à família, retratada de forma desagradável. Richard obteve sucesso em proibir a execução do curta com base na violação dos direitos autorais das canções, usadas sem permissão.
Um telefilme de 1989, A História de Karen Carpenter, produzida com a ajuda de Richard teve audiência na época de seu lançamento. Nesse ano, foi lançado o disco Lovelines, com canções que não entraram nos discos anteriores e do disco-solo de Karen, que como já foi dito, seria lançado em 1996, sob o título Karen Carpenter.
Muitas das canções dos Carpenters são populares ainda hoje, tais como: “Close to You”, que é cantada em bares de karaokê e “We’ve only just begun” continua popular em casamentos. A dupla ainda marcaria presença em duas trilhas sonoras de novelas brasileiras: “I Need To Be In Love” foi tema da personagem Lina (Renata Sorrah) na novela O Casarão, em 1976; e “Make Believe It’s Your First Time” embalava a história de Liliane, personagem de Cristina Mullins na novela Voltei Pra Você, em 1983.
Hoje, Richard Carpenter vive com sua esposa, Mary Rudolf-Carpenter e suas quatro filhas em Thousand Oaks, Califórnia e o casal se tornou grande fomentador da produção artística na cidade. Richard é também colecionador de carros antigos que são ganhadores de concursos.
Discografia
Álbuns originais
• 1969 - Ticket to Ride (originalmente lançado como Offering)
• 1970 - Close to You
• 1971 - Carpenters
• 1972 - A Song For You
• 1973 - Now & Then
• 1975 - Horizon
• 1976 - A Kind of Hush
• 1977 - Passage
• 1978 - Christmas Portrait
• 1981 - Made in America
• 1983 - Voice of the Heart
Coletâneas e lançamentos de material inédito
• 1984 - An Old-Fashioned Christmas
• 1989 - Lovelines
• 2004 - As Time Goes By

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Perseu - Mitologia Grega

agosto 26, 2009 por raquel  
Arquivado em mitologia

Quando o rei Acrisius recebeu o negro vaticínio do Oráculo de Apolo, ele quase perdeu os sentidos. Porque isso acontecia a ele? O que haveria de fazer ele para que o filho de sua filha o matasse um dia? Esperou sua razão retornar e pôs-se a pensar no que faria para evitar que fosse cumprida tão negra profecia. “Sim, de minhas mãos

Bust of Zeus in the British Museum
Image via Wikipedia

partirá um ato de grande crueldade, mas também de grande necessidade. Trancarei minha filha, minha tão amada filha, em uma torre para nunca mais sair. Assim confinada, não poderá ter filhos, e não será cumprida a profecia de Apolo”. E ao retornar à sua cidade, fez com que sua vontade fosse cumprida e a jovem Dânae foi levada a uma torre de bronze.

Passaram-se muitos dias, muitos meses, e a bela Dânae continuava trancada naquela torre, sem entender muito bem o motivo que a tornara cativa de seu próprio pai.

Não havia maneiras de fugir de sua prisão, pois aquela torre não possuía portas ou escadarias, apenas uma pequenina janela por onde entrava os raios do sol e através da qual passava longos momentos a espiar o mundo lá fora. Um dia colou seu rosto à janela para sentir o frescor da manhã, mas a sensação de impotência perante sua situação feriu de tal maneira seu ânimo que quedou para trás, a cabeça segura pelas mãos e lágrimas nos olhos. Foi quando sentiu uma presença estranha. Abriu os olhos e ficou estarrecida ante o que viu: Uma chuva de pingos dourados, brilhantes como o sol entrava através da pequena janela e tomava a forma de um homem.

Hermes binding his sandals after having killed...

Hermes

Era uma figura majestosa e carregava em sua mão um raio. Dânae percebeu que quem estava à sua frente não podia ser um homem, mas um deus. O ser aproximou-se dela e disse: ” Não temas, bela donzela. Sou um deus poderoso e vi o que seu pai fez a ti. Seu sofrimento e resignação me fizeram querer fazer de ti minha esposa”.

Dito isso, transformou a prisão horrível em um lugar maravilhoso, ensolarado e cheio de flores. A beleza era tanta que fez a torre assemelhar-se aos Campos Elísios. Porém os guardas encarregados de levar a comida à Dânae estranharam a luz que emanava de dentro da torre e correram para avisar ao rei. “Senhor, algo de maravilhoso acontece naquela torre. Estamos todos temerosos de até mesmo espiar lá dentro”. O rei apressou-se a ver o que estava acontecendo na torre, e ao notar a claridade que partia da pequena janela, mandou que os guardas arrombassem as paredes para que ele pudesse entrar.

Quando finalmente as paredes foram postas ao chão, o rei pode ver que sua filha trazia nos braços uma criança forte e saudável. “Como podes ter dado à luz uma criança, se te mantive trancada nesta torre por tanto tempo, sem contato com nenhum ser vivente?”. Dânae sorriu ante a confusão do rei e contou-lhe toda a história. “Ele chama-se Perseu, e é teu neto”. Que um milagre havia ocorrido era certo. Porém ele não podia deixar que o oráculo do deus Apolo fosse cumprido. Precisava acabar com aquela pequena vida. Sem coragem para mandar matar aquela a criança, que era de sua descendência, trancou mãe e filho em uma caixa, e atirou ambos ao mar.

Zeus não deixaria que sua prole fosse tão cruelmente assassinada, e de um modo misterioso aquela caixa chegou seguramente à ilha de Seriphos, da qual um certo Polydectes era o soberano. Seu irmão, Dictys, era um pescador e acabara de abrir suas redes na praia quando avistou aquela caixa que boiava perto da linha do horizonte. Pegou em sua mão uma rede e entrou no mar, correndo em direção à caixa, até parar com água na altura do peito. Lançou então a rede e pegou a caixa, que puxou fortemente para a praia. Imaginem a sua surpresa ao abrir a caixa e ver uma linda mulher com uma criança em seus braços! O pescador ficou comovido com a história contada por Dânae e prometeu cuidar de ambos, até que se sentissem seguros para partir.

Nesta ilha Perseu cresceu e se tornou um jovem forte e habilidoso, e sua mãe havia se tornado uma mulher muito bela, agora mais madura. Um certo dia, o rei Polydectes passou pela casa do irmão e se encantou com a beleza de sua hóspede. Desejou tê-la e, mesmo sendo rejeitado, cumpriria seu intento, se Perseu não o impedisse. O rei ficou com muita raiva de Perseu, mas temia matar um hóspede de sua ilha e atrair a ira de alguma divindade.

Polydectes armou, então, um plano que o livraria da presença importuna de Perseu. Aproveitou o casamento da filha de um amigo e, dizendo-se protetor de tal matrimônio, obrigou que todos os convidados trouxessem algum presente. Perseu era muito pobre, pois vivia na ilha apenas ajudando as pescarias de Dictys. O rei fingiu estar furioso quando o jovem Perseu entrou no santuário de mãos vazias. Acusou-o de vagabundo e insolente, ao que Perseu respondeu: “Aponte-me um presente que possa ser conseguido apenas com meu trabalho e bravura, e não com posses, e eu o trarei. Qualquer um”. “Pois traga-me a cabeça da górgona Medusa, então”. Seu plano havia funcionado e Perseu caiu em sua armadilha. O herói não podia mais voltar atrás e teve de aceitar a tarefa, de tão grande risco que certamente pereceria sem completar.

Ninguém jamais havia visto uma górgona e continuado vivo. Pois segundo contavam, eram seres abomináveis, com serpentes pretas em lugar dos cabelos, pele de escamas, asas douradas e mãos de bronze que estraçalhariam qualquer homem que delas ousasse se aproximar. Mas, pior que tudo, seus olhos tinham o poder de converter qualquer um que os olhasse em pedra. Perseu sentiu medo apenas de pensar em tais criaturas, mas não querendo quebrar sua palavra, partiu em uma viagem desesperada.

Já durava dias a sua busca e Perseu não havia visto nenhum sinal da Medusa. Exausto, sentou-se em uma pedra que estava à beira do caminho para recuperar suas forças. Subitamente, uma mulher muito alta e bela e um jovem forte com sandálias aladas apareceram em seu caminho. “Estás procurando pela Medusa ou já desistiu de teu intento?”, disse o jovem de sandálias aladas. “Quem são vocês e o que querem comigo?”. “Sou o deus Hermes e esta é a deusa Atena. Nosso pai ordenou que viessemos ajudá-lo a cumprir sua missão, pois corres grande risco”. Dito isso, o deus pegou suas sandálias e as entregou a Perseu: “Estas são minhas sandálias. Elas podem te sustentar no ar e levá-lo rapidamente a qualquer lugar que desejes ir. Tome também essa foice que foi usada por Cronos para castrar Urano e pelo grande Zeus para vencer o poderoso Typhon“. “E este é meu presente”, disse a bela deusa Atenas, “Segure meu escudo, com certeza ele protegerá a ti do poder da Medusa”. “Ah, sim, estava quase esquecendo-me”, disse Hermes, “Você deve ir até a caverna das Graeae (Gréias ou Grisalhas) e conseguir que elas te indiquem o caminho para as Ninfas do Norte, que te darão o gorro da escuridão e uma sacola mágica para guardares a cabeça da Medusa. Elas também te indicarão o caminho para a toca das górgonas”.

Sem demora, Perseu colocou as sandálias mágicas e voou em direção a caverna das Graeae. Lá chegando, ficou escondido próximo à entrada, de onde pode observar o interior. As Graeae (Pemphredo, Enyo e Dino) eram três mulheres idosas que possuiam apenas um olho e um dente, os quais tinham de compartilhar para que pudessem enxergar ou comer. Essa fraqueza das Graeae fez com que Perseu elaborasse um plano para extrair das mulheres a informação que necessitava. Perseu escondeu-se entre uns arbustos no interior da caverna, enquanto as Graeae preparavam algo em seu caldeirão. Ele atirou uma pedra em direção a entrada, o que fez com que as Graeae que estava com o olho se voltasse para aquela direção enquanto as demais questionavam sobre a origem do ruído. Quando ela estava passando o olho para outra Graeae, Perseu tomou o olho de sua mão. Ante os gritos de ameaça e confusão das mulheres, Perseu exigiu que lhe fosse indicado o caminho para as ninfas do Norte, em troca do olho roubado. Só depois de perceber que Perseu estava disposto a não retornar-lhes seu olho foi que as Graeae concordaram em revelar o caminho. Querendo ganhar tempo para fugir, Perseu deixou o olho sobre uma pedra na caverna, forçando as três mulheres à procurr o olho e ganhando, asim, tempo para fugir.

Novamente usando suas sandálias aladas, alcançou rapidamente o bosque das ninfas, seguindo o caminho indicado pelas Graeae. As ninfas do Norte eram criaturas simpáticas aos homens, e sabendo da sua missão, deram o gorro e a sacola ao herói. “Esse gorro tem a qualidade de fazer qualquer pessoa que o esteja usando invisível”, disseram as Ninfas, e indicaram a ele o caminho para a toca das górgonas.

Andrômeda e Perseu por MignardPerseu então voou para norte, pelo caminho que as ninfas lhe disseram, até que chegou à uma ilha, cercada de estátuas de pedra. Perseu aproximou-se de uma dessas estátuas e sentiu seu sangue gelar: Compreendera que aquelas mórbidas estátuas de pedra na verdade eram os corpos transformados em pedra das pessoas que ousaram aproximar-se do local das górgonas. Escondeu-se atemorizado atrás da estátua e colocou o escudo de Atenas na altura de seus olhos. Pelo reflexo do escudo começou a vasculhar a ilha procurando sinal dos monstros, até que viu a entrada da toca onde habitavam.

Medusa by Caravaggio, rotella (tournament shie...
Image via Wikipedia

Perseu continuou a andar de costas para a toca, guiando-se pelo reflexo do Perseu com a Cabeça da Medusaescudo. Viu que em seu interior Medusa e suas irmãs estavam adormecidas e aproveitou essa oportunidade para realizar seu feito. Aproximou-se de medusa e, tendo seus braços guiados pela deusa Atenas, cortou sua cabeça com a foice de Zeus no exato instante que esta abria os olhos. O grito que esta soltou combinado ao barulho de seu corpo caindo ao chão, acordou suas irmãs. Da cabeça cortada da Medusa saíram dois seres fantásticos: o cavalo alado Pégasos e o gigante Crisaor, ambos filhos de Poseidon. Perseu, porém, colocou sua cabeça na sacola mágica e alçou vôo para fugir da caverna, enquanto as irmãs da Medusa, agora despertas, tentavam ferir o herói. Perseu podia agora retornar ao seu lar, pois havia cumprido o que prometera.

Em seu caminho de volta, Perseu avistou Atlas, que sustentava a abôbada celeste em suas costas, como punição por haver se juntado aos gigantes na luta contra Zeus, e sentiu pena do seu fardo. Voou próximo ao seu rosto e, tirando a cabeça da Medusa da sacola mágica, transformou o titã em pedra, para que não mais sentisse o peso que devia manter suspenso.

Sobrevoando uma praia, viu o que pareceu-lhe ser uma estátua acorrentada a uma rocha. Ficou curioso com sua visão e resolveu pousar no promontório de pedra. Qual foi a sua surpresa ao ver que a estátua na verdade era uma belíssima jovem. “O que fazes assim, presa, a uma rocha, deixada frente a fúria do mar?”, perguntou o herói. “Fui acorrentada porque minha mãe insultou os deuses, dizendo que eu era mais bela que as nereidas. Isso enfureceu a Poseidon de tal maneira que ele exigi que eu fosse sacrificada a um monstro que surgiria do mar ou todo o reino seria devastado. Por isso meu pai me prendeu a essas rochas.”

Mal terminara de ouvir a história, um som terrível elevou-se do mar às suas costas. Um monstro imenso saiu do mar e, vendo a jovem acorrentada, rumou em direção à pedra. Perseu avaliou bem o tamanho do monstro e sua agilidade, e se lançou ao ar, voando fora do alcance do monstro. Quando já havia se aproximado o suficiente, tirou de sua sacola a cabeça de Medusa, enquanto o monstro instantâneamente teve a pele convertida em rocha, afundando no mar.

Perseu voltou à rocha e libertou a jovem. “Sou Andrômeda, e meu pai é o Rei Cepheus”, disse. Perseu pegou-a nos braços e levou-a ao seu pai. Quando este o viu chegando voando com a sua filha - ainda viva - nos braços, ficou assustado e pensou estar vendo um deus. Perseu explicou o que havia ocorrido e como derrotara o monstro. Ante a estupefação do soberano, Perseu pediu a mão da linda Andrômeda, que foi concedida prontamente.

Agora Perseu retornaria para Seriphus, para junto de sua mãe. No caminho Perseu decidiu parar em Larisa e competir nos jogos que lá estavam ocorrendo. A primeira prova consistia no lançamento de disco, o qual Perseu era bastante hábil. O seu disco, porém, acertou um velho homem, de nome Acrisius, que estava numa das arquibancadas. Perseu lamentou bastante a morte do homem, sem saber que a antiga profecia de Apolo havia finalmente se cumprido.

Finalmente Perseu chegou à ilha de Seriphus, após tantas aventuras. Quando entrou na casa onde morava encontrou-a vazia e correu à praia para procurar o pescador Dictys. Este informou-lhe que o seu irmão, não tendo obtido sucesso em convecer Dânae a desposá-lo, obrigou-a a ser sua camareira. Perseu ficou furioso. Deixou Andrômeda e Dictys na praia e rumou para o castelo do rei.

Entrou no palácio por uma das janelas e posou bem em frente ao trono de Polydectes. “Muito bem, Polydectes”, disse o herói, “trago comigo o que prometi a você, mesmo havendo arriscado minha vida. Acho porém que você não me acredita, e deseja ver para ter a prova”. Enfiou a mão em sua sacola e segurou a cabeça da Medusa. “Os que são meus amigos que fechem os olhos!”, gritou. Polydectes não deu ouvidos ao seu aviso e olhou diretamente para a cabeça da Medusa quando esta foi tirada da sacola. Ele e todos os seus cortesãos foram transformados em estátuas.

Perseu e Andrômeda viveram alegremente por muitos anos na ilha de Seriphus, e tiveram uma descendência muito gloriosa. Perseu era o avó de Herácles, que tornou-se um dos maiores heróis da antigüidade.

Tanto ele quanto sua amada Andrômeda foram levados ao céu por Zeus e transformados em constelações.

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Machado de Assis

agosto 23, 2009 por raquel  
Arquivado em literatura

Machado de Assis foi um autor singular no panorama literário do seu tempo. Primou pelo uso essencial das palavras para exprimir seu pensamento. Usou intensamente recursos de metalinguagem e envolveu a participação do leitor em suas narrativas. Exercitou a ironia e o sarcasmo como ferramentas de crítica social.

O conjunto de sua obra retrata a coexistência do amor e do ciúme, da verdade e da mentira, do ser e do parecer. Chama a atenção para a ambiguidade e as sutilezas emocionais dos seus personagens, e para as mazelas da sociedade do seu tempo. A sua obra mantém-se tão atual e tão influente quanto há um século atrás.

Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento.

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Biografia

Joaquim Maria Machado de Assis, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839. Filho de um operário mestiço de negro e português, Francisco José de Assis, e de D. Maria Leopoldina Machado de Assis, aquele que viria a tornar-se o maior escritor do país e um mestre da língua, perde a mãe muito cedo e é criado pela madrasta, Maria Inês, também mulata, que se dedica ao menino e o matricula na escola pública, única que freqüentará o autodidata Machado de Assis.

Machado jovem

Machado jovem

De saúde frágil, epilético, gago, sabe-se pouco de sua infância e início da juventude. Criado no morro do Livramento, consta que ajudava a missa na igreja da Lampadosa. Com a morte do pai, em 1851, Maria Inês, à época morando em São Cristóvão, emprega-se como doceira num colégio do bairro, e Machadinho, como era chamado, torna-se vendedor de doces. No colégio tem contato com professores e alunos e é até provável que assistisse às aulas nas ocasiões em que não estava trabalhando.

Mesmo sem ter acesso a cursos regulares, empenhou-se em aprender. Consta que, em São Cristóvão, conheceu uma senhora francesa, proprietária de uma padaria, cujo forneiro lhe deu as primeiras lições de Francês. Contava, também, com a proteção da madrinha D. Maria José de Mendonça Barroso, viúva do Brigadeiro e Senador do Império Bento Barroso Pereira, proprietária da Quinta do Livramento, onde foram agregados seus pais.

Aos 16 anos, publica em 12-01-1855 seu primeiro trabalho literário, o poema “Ela”, na revista Marmota Fluminense, de Francisco de Paula Brito. A Livraria Paula Brito acolhia novos talentos da época, tendo publicado o citado poema e feito de Machado de Assis seu colaborador efetivo.

Com 17 anos, consegue emprego como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional, e começa a escrever durante o tempo livre. Conhece o então diretor do órgão, Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um sargento de milícias, que se torna seu protetor.

Em 1858 volta à Livraria Paula Brito, como revisor e colaborador da Marmota, e ali integra-se à sociedade lítero-humorística Petalógica, fundada por Paula Brito. Lá constrói o seu círculo de amigos, do qual faziam parte Joaquim Manoel de Macedo, Manoel Antônio de Almeida, José de Alencar e Gonçalves Dias.

Começa a publicar obras românticas e, em 1859, era revisor e colaborava com o jornal Correio Mercantil. Em 1860, a convite de Quintino Bocaiúva, passa a fazer parte da redação do jornal Diário do Rio de Janeiro. Além desse, escrevia também para a revista O Espelho (como crítico teatral, inicialmente), A Semana Ilustrada(onde, além do nome, usava o pseudônimo de Dr. Semana) e Jornal das Famílias.

Seu primeiro livro foi impresso em 1861, com o título Queda que as mulheres têm para os tolos, onde aparece como tradutor. No ano de 1862 era censor teatral, cargo que não rendia qualquer remuneração, mas o possibilitava a ter acesso livre aos teatros. Nessa época, passa a colaborar em O Futuro, órgão sob a direção do irmão de sua futura esposa, Faustino Xavier de Novais.

Publica seu primeiro livro de poesias em 1864, sob o título de Crisálidas.

Em 1867, é nomeado ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial.

Agosto de 1869 marca a data da morte de seu amigo Faustino Xavier de Novais, e, menos de três meses depois, em 12 de novembro de 1869, casa-se com Carolina Augusta Xavier de Novais.

Fundadores - Academia Brasileira de Letras

Fundadores - Academia Brasileira de Letras

Nessa época, o escritor era um típico homem de letras brasileiro bem sucedido, confortavelmente amparado por um cargo público e por um casamento feliz que durou 35 anos. D. Carolina, mulher culta, apresenta Machado aos clássicos portugueses e a vários autores da língua inglesa.

Sua união foi feliz, mas sem filhos. A morte de sua esposa, em 1904, é uma sentida perda, tendo o marido dedicado à falecida o soneto Carolina, que a celebrizou.

Seu primeiro romance, Ressurreição, foi publicado em 1872. Com a nomeação para o cargo de primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, estabiliza-se na carreira burocrática que seria o seu principal meio de subsistência durante toda sua vida.

No O Globo de então (1874), jornal de Quintino Bocaiúva, começa a publicar em folhetins o romance A mão e a luva. Escreveu crônicas, contos, poesias e romances para as revistas O Cruzeiro, A Estação e Revista Brasileira.

Sua primeira peça teatral é encenada no Imperial Teatro Dom Pedro II em junho de 1880, escrita especialmente para a comemoração do tricentenário de Camões, em festividades programadas pelo Real Gabinete Português de Leitura.

Na Gazeta de Notícias, no período de 1881 a 1897, publica aquelas que foram consideradas suas melhores crônicas.

Em 1881, com a posse como ministro interino da Agricultura, Comércio Obras Públicas do poeta Pedro Luís Pereira de Sousa, Machado assume o cargo de oficial de gabinete.

Publica, nesse ano, um livro extremamente original , pouco convencional para o estilo da época: Memórias Póstumas de Brás Cubas — que foi considerado, juntamente com O Mulato, de Aluísio de Azevedo, o marco do realismo na literatura brasileira.

Extraordinário contista, publica Papéis Avulsos em 1882, Histórias sem data (1884), Vária Histórias (1896), Páginas Recolhidas (1889), e Relíquias da casa velha (1906).

Torna-se diretor da Diretoria do Comércio no Ministério em que servia, no ano de 1889.

Grande amigo do escritor paraense José Veríssimo, que dirigia a Revista Brasileira, em sua redação promoviam reuniões os intelectuais que se identificaram com a idéia de Lúcio de Mendonça de criar uma Academia Brasileira de Letras. Machado desde o princípio apoiou a idéia e compareceu às reuniões preparatórias e, no dia 28 de janeiro de 1897, quando se instalou a Academia, foi eleito presidente da instituição, cargo que ocupou até sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro em 29 de setembro de 1908. Sua oração fúnebre foi proferida pelo acadêmico Rui Barbosa.

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Retrato de Machado de Assis por Marc Ferrez

É o fundador da cadeira nº. 23, e escolheu o nome de José de Alencar, seu grande amigo, para ser seu patrono.

Por sua importância, a Academia Brasileira de Letras passou a ser chamada de Casa de Machado de Assis.

Dizem os críticos que Machado era “urbano, aristocrata, cosmopolita, reservado e cínico, ignorou questões sociais como a independência do Brasil e a abolição da escravatura. Passou ao longe do nacionalismo, tendo ambientado suas histórias sempre no Rio, como se não houvesse outro lugar. … A galeria de tipos e personagens que criou revela o autor como um mestre da observação psicológica. … Sua obra divide-se em duas fases, uma romântica e outra parnasiano-realista, quando desenvolveu inconfundível estilo desiludido, sarcástico e amargo. O domínio da linguagem é sutil e o estilo é preciso, reticente. O humor pessimista e a complexidade do pensamento, além da desconfiança na razão (no seu sentido cartesiano e iluminista), fazem com que se afaste de seus contemporâneos.

O crítico estadunidense Harold Bloom considera Machado de Assis um dos 100 maiores gênios da literatura de todos os tempos (chegando ao ponto de considerá-lo o melhor escritor negro da literatura ocidental), ao lado de clássicos como Dante, Shakespeare e Cervantes. A obra de Machado de Assis vem sendo estudada por críticos de vários países do mundo, entre eles, Giusepe Alpi (Itália), Lourdes Andreassi (Portugal), Albert Bagby Jr. (Estados Unidos da América), Abel Barros Baptista (Portugal), Hennio Morgan Birchal (Brasil), Edoardo Bizzarri (Itália), Jean-Michel Massa (França), Helen Caldwell (Estados Unidos da América), John Gledson (Inglaterra), Adrien Delpech (França), Albert Dessau (Alemanha), Paul Dixon (Estados Unidos da América), Keith Ellis (Estados Unidos da América), Edith Fowke (Canadá), Anatole France (França), Richard Graham (Estados Unidos da América), Pierre Hourcade (França), David Jackson (Estados Unidos da América), Linda Murphy Kelley (Estados Unidos da América), John C. Kinnear, Alfred Mac Adam (Estados Unidos da América), Victor Orban (França), Houwens Post (Itália), Samuel Putnam (Estados Unidos da América), John Hyde Schmitt, Tony Tanner (Inglaterra), Jack E. Tomlins (Estados Unidos da América), Carmelo Virgillo (Estados Unidos da América), Dieter Woll (Alemanha) e Susan Sontag (Estados Unidos da América).

BIBLIOGRAFIA

Comédia

Desencantos, 1861.
Tu, só tu, puro amor, 1881.

Poesia

Crisálidas, 1864.
Falenas, 1870.
Americanas, 1875.
Poesias completas, 1901.

Romance

Autógrafo de Machado na primeira edição de Dom Casmurro

Autógrafo de Machado na primeira edição de Dom Casmurro

Ressurreição, 1872.
A mão e a luva, 1874.
Helena, 1876.
Iaiá Garcia, 1878.
Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881.
Quincas Borba, 1891.
Dom Casmurro, 1899.
Esaú Jacó, 1904.
Memorial de Aires, 1908.

Conto:

Contos Fluminenses,1870.
Histórias da meia-noite, 1873.
Papéis avulsos, 1882.
Histórias sem data, 1884.
Várias histórias, 1896.
Páginas recolhidas, 1899.
Relíquias de casa velha, 1906.

Teatro

Queda que as mulheres têm para os tolos, 1861
Desencantos, 1861
Hoje avental, amanhã luva, 1861.
O caminho da porta, 1862.
O protocolo, 1862.
Quase ministro, 1863.
Os deuses de casaca, 1865.
Tu, só tu, puro amor, 1881.

Algumas obras póstumas

Crítica, 1910.
Teatro coligido, 1910.
Outras relíquias, 1921.
Correspondência, 1932.
A semana, 1914/1937.
Páginas escolhidas, 1921.
Novas relíquias, 1932.
Crônicas, 1937.
Contos Fluminenses - 2º. volume, 1937.
Crítica literária, 1937.
Crítica teatral, 1937.
Histórias românticas, 1937.
Páginas esquecidas, 1939.
Casa velha, 1944.
Diálogos e reflexões de um relojoeiro, 1956.
Crônicas de Lélio, 1958.
Conto de escola, 2002.

Antologias

Obras completas (31 volumes), 1936.
Contos e crônicas, 1958.
Contos esparsos, 1966.
Contos: Uma Antologia (02 volumes), 1998

Em 1975, a Comissão Machado de Assis, instituída pelo Ministério da Educação e Cultura, organizou e publicou as Edições críticas de obras de Machado de Assis, em 15 volumes.

Seus trabalhos são constantemente republicados, em diversos idiomas, tendo ocorrido a adaptação de alguns textos para o cinema e a televisão.

Fonte: Releituras

Saiba mais

Veja esta série de vídeos sobre a vida e a obra de Machado de Assis

Primeira parte

Segunda Parte

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Clara Nunes

agosto 22, 2009 por raquel  
Arquivado em música

Clara Francisca Gonçalves Pinheiro, conhecida como Clara Nunes, (Caetanópolis, 12 de agosto de 1943 - Rio de Janeiro, 2 de abril de 1983) é considerada uma das maiores intérpretes do país. Pesquisadora da música popular brasileira, de seus ritmos e de seu folclore, Clara também viajou várias vezes para a África, representando o Brasil. Conhecedora das danças e das tradições afro-brasileiras, ela se converteu à Umbanda. Clara Nunes seria uma das cantoras que mais gravaria canções dos compositores da Portela, escola para a qual torcia. Também foi a primeira cantora brasileira a vender mais de 100 mil cópias, derrubando um tabu segundo o qual mulheres não vendiam disco.

Biografia

Infância

Caçula dos sete filhos do casal Manuel Ferreira de Araújo e Amélia Gonçalves Nunes, Clara Nunes nasceu no interior de Minas Gerais, no distrito de Cedro - à época pertencente ao município de Paraopeba e depois emancipado com o nome de Caetanópolis, onde viveu até aos 16 anos.

claranunes8Marceneiro na fábrica de tecidos Cedro & Cachoeira, o pai de Clara era conhecido como Mané Serrador e também era violeiro e participante das festas de Folia de Reis. Mas Manuel morreu em 1944 e, pouco depois, Clara ficaria também órfã de mãe e acabaria sendo criada por sua irmã Dindinha (Maria Gonçalves) e o irmão José (conhecido como Zé Chilau). Naquela época, Clara participava de aulas de catecismo na matriz da Cruzada Eucarística. Lá também cantava ladainhas em latim no coro da igreja.

Segundo as suas próprias palavras, cresceu ouvindo Carmem Costa, Ângela Maria e, principalmente, Elizeth Cardoso e Dalva de Oliveira, das quais sempre teve muita influência, mantendo, no entanto, estilo próprio. Em 1952, ainda menina, Clara venceu seu primeiro concurso de canto organizado em sua cidade, interpretando “Recuerdos de Ypacaraí”. Como prêmio, ganhou um vestido azul. Aos 14 anos, Clara ingressou como tecelã na fábrica Cedro & Cachoeira, a mesma para o qual seu pai trabalhou.

Teve que se mudar para Belo Horizonte, indo morar com a irmã Vicentina e o irmão Joaquim, por causa do assassinato de um namorado, cometido em 1957 por seu irmão Zé Chilau. Na capital mineira, Clara trabalhou como tecelã durante o dia e fez o curso normal à noite. Aos finais de semana, participava dos ensaios do Coral Renascença, na igreja do bairro onde morava. Naquela época, conheceu o violonista Jadir Ambrósio, conhecido por ter composto o hino do Cruzeiro). Admirado com a voz da jovem de 16 anos, Jadir levou Clara a vários programas de rádio, como “Degraus da Fama”, no qual ela se apresentou com o nome de Clara Francisca.

Mudança de nome

No início da década de 1960, Clara conheceu também Aurino Araújo (irmão de Eduardo Araújo), que a levou para conhecer muitos artistas. Aurino também seria seu namorado durante dez anos. Por influência do produtor musical Cid Carvalho, mudou o nome para Clara Nunes, usando o sobrenome da mãe.

Em 1960, já com o nome de Clara Nunes e ainda como tecelã, ela venceu a etapa mineira do concurso “A Voz de Ouro ABC”, com a música “Serenata do Adeus”, composta por Vinicius de Moraes e gravada anteriormente por Elizeth Cardoso. Na final nacional do concurso realizada em São Paulo, Clara Nunes obteve o terceiro com a canção “Só Adeus” (de Jair Amorim e Evaldo Gouveia).

A partir daí, Clara Nunes começou a cantar na Rádio Inconfidência de Belo Horizonte. Durante três anos seguidos foi considerada a melhor cantora de Minas Gerais. Ela também passou a se apresentar como crooner em clubes e boates na capital mineira e chegou a trabalhar com o então baixista Milton Nascimento - àquela altura conhecido como Bituca.

Naquela época, fez sua primeira apresentação na televisão, no programa de Hebe Camargo em Belo Horizonte. Em 1963, Clara Nunes ganhou um programa exclusivo na TV Itacolomi, chamado “Clara Nunes Apresenta” e exibido por um ano e meio. No programa se apresentavam artistas de reconhecimento nacional, entre os quais Altemar Dutra e Ângela Maria.[1]

Viveu em Belo Horizonte até 1965, quando se mudou para a cidade do Rio de Janeiro, mas especificamente para Copacabana.

Os primeiros discos

Já no Rio de Janeiro, Clara Nunes se apresentava em vários programas de televisão, como José Messias, Chacrinha, Almoço com as Estrelas e Programa de Jair do Taumaturgo. Antes de aderir ao samba, Clara cantava especialmente boleros. Além de emissoras de rádios e televisão, ela também percorreu escolas de samba, clubesclaranunes3 e casas noturnas nos subúrbios cariocas.

Ainda em 1965, ela passou por um teste como cantora na gravadora Odeon, onde registrou pela primeira vez a sua voz em um LP. O disco foi lançado pela Rádio Inconfidência (onde Clara trabalhou quando morava em Belo Horizonte) e contava com a participação de outros artistas, todos da Odeon.

No ano seguinte, Clara foi contratada por esta gravadora, a primeira e a única em toda a sua vida. Naquele mesmo ano, foi lançado o primeiro LP oficial da cantora, “A Voz Adorável de Clara Nunes”. Por insistência da gravadora para que ela interpretasse músicas românticas, Clara apresentou neste álbum um repertório de boleros e sambas-canções, mas o LP foi um fracasso comercial. Em 1968, Clara Nunes gravou “Você Passa e Eu Acho Graça”, seu segundo disco na carreira e o primeiro onde cantaria sambas. A faixa-título (de Ataulfo Alves e Carlos Imperial) foi seu primeiro grande sucesso radiofônico.

No ano seguinte, a Odeon lançou “A Beleza Que Canta”, LP no qual a cantora interpretou “Casinha Pequena”, uma canção de domínio público. Ainda em 1969, Clara Nunes ganhou o primeiro lugar no “I Festival da Canção Jovem de Três Rios” com a música “Pra Que Obedecer” (de Paulinho da Viola e Luís Sérgio Bilheri) e ainda classificou a canção “Encontro” (de Elton Medeiros e Luís Sérgio Bilheri) na terceira colocação. Ficou em oitavo lugar “IV Festival Internacional da Canção Popular” com a música “Ave Maria do Retirante” (de Alcyvando Luz e Carlos Coqueijo), que foi lançada naquele mesmo ano em disco homônino.

Afirmação no samba

Em 1970, Clara Nunes se apresentou em Luanda, capital angolana, em convite de Ivon Curi. No ano seguinte, a cantora gravou seu quarto LP, no qual interpretou e “É Baiana” (de Fabrício da Silva, Baianinho, Ênio Santos Ribeiro e Miguel Pancrácio), música que obteve considerável sucesso no carnaval de 1971, e “Ilu Ayê”, samba-enredo da Portela (de autoria de Norival Reis e Silvestre Davi da Silva). Na capa do álbum, a cantora mineira fez um permanente nos cabelos pintados de vermelho e passou a partir daí a se vestir com roupas que remetiam às religiões afro-brasileiras.

Em 1972, Clara se firmou como cantora de samba com o lançamento do álbum “Clara Clarice Clara”. Com arranjos e orquestrações do maestro Lindolfo Gaya e com músicos como o violonista Jorge da Portela e Carlinhos do Cavaco, o disco teve como grandes destaques as canções “Seca do Nordeste” (um samba-enredo da escola de samba Tupi de Brás de Pina), “Morena do Mar” (de Dorival Caymmi), “Vendedor de Caranguejo” (de Gordurinha), “Tributo aos Orixás” (de Mauro Duarte, Noca e Rubem Tavares) e a faixa-título “Clara Clarice Clara” (de Caetano Veloso e Capinam. Ainda naquele ano, Clara Nunes se apresentou no “Festival de Música de Juiz de Fora” e gravou um compacto simples da música “Tristeza, Pé no Chão” (de Armando Fernandes), que vendeu mais de 100 mil cópias.

A Odeon lançou em 1973 o disco “Clara Nunes”. Naquele mesmo ano, a cantora estreou com Vinicius de Moraes e Toquinho o show “O poeta, a moça e o violão” no Teatro Castro Alves, em Salvador. Também em 1973, Clara foi convidada pela Rádio e Televisão Portuguesa para fazer uma temporada em Lisboa. Depois, percorreu alguns outros países da Europa, como a Suécia, onde gravou um especial ao lado da Orquestra Sinfônica de Estocolmo para a TV local.

claranunes5Sucesso comercial

Clara Nunes integrou a comissão que representou o Brasil no “Festival do Midem”, em Cannes, em 1974. Por lá, a Odeon somente para o público europeu o disco “Brasília”, que foi base para o LP “Alvorecer”. Este álbum emplacou grandes sucessos como “Contos de Areia” (de Romildo S. Bastos e Toninho Nascimento), “Menino Deus” (de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro) e “Meu Sapato Já Furou” (de Mauro Duarte e Elton Medeiros).[2] O LP bateu recorde de vendagem para cantoras brasileiras, com mais de 300 mil cópias vendidas, um feito nunca antes registrado no Brasil. Ainda em 1974, a cantora atuou (ao lado de Paulo Gracindo), em “Brasileiro Profissão Esperança”, espetáculo de Paulo Pontes, referente à vida da cantora e compositora Dolores Duran e do compositor e jornalista Antônio Maria. O show ficou em cartaz no Canecão até 1975 e gerou o disco homônimo.

Também em 1975, a Odeon lançaria ainda o LP “Claridade”. Com grandes sucessos como “O Mar Serenou” (de Candeia) e “Juízo Final” (de autoria de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares), este álbum se tornou o maior sucesso da carreira da cantora, batendo o recorde de vendagem feminina e alavancando o samba-enredo da Portela na avenida, “Macunaíma, Herói da Nossa Gente” (de autoria de Norival Reis e Davi Antônio Correia), com o qual a escola classificou-se em 5º lugar no Grupo 1. Ainda naquele ano, Clara se casou com o poeta, compositor e produtor Paulo César Pinheiro e percorreu vários países da Europa em turnê.

Clara Nunes gravou o LP “Canto das Três Raças” em 1976. Além da faixa-título (de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro), grande sucesso na carreira da cantora, o disco contava ainda com “Lama” (de Mauro Duarte), “Tenha Paciência” (de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito), “Riso e Lágrimas” (de Nelson Cavaquinho, Rubens Brandão e José Ribeiro), “Fuzuê” (de Romildo e Toninho) e “Retrato Falado” (de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro).

Em 1977, a Odeon lançou o disco “As Forças da Natureza”, um álbum mais dedicado ao partido alto. O LP teve como principais destaques a faixa-título (de João Nogueira e Paulo César Pinheiro), “Coração Leviano” (de Paulinho da Viola e “Coisa da Antiga” (de Wilson Moreira e Nei Lopes). O disco ainda contou com a participação de Clementina de Jesus na faixa “PCJ-Partido da Clementina de Jesus” (de Candeia) e lançou “À Flor da Pele”, primeira composição de Clara (feita em parceria com Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro).

Em 1978, foram lançados os álbuns “Guerreira”, no qual Clara interpretou vários ritmos brasileiros além do samba - sua marca registrada -, e “Esperança”, com destaque para a faixa “Feira de Mangaio” (de Sivuca e Glorinha Gadelha). Ainda naquele ano, participou do LP “Vida boêmia”, de João Nogueira, no qual interpretou “Bela Cigana” (de João Nogueira e Ivor Lancellotti), e esteve - ao lado de Chico Buarque, Maria Bethânia e outros artistas - no show do Riocentro, que marcaria a história política brasileira devido à explosão de uma bomba.

Em 1979, Clara participou do LP “Clementina”, de Clementina de Jesus. Naquele mesmo ano, a cantora mineira se submetia a uma histerectomia (remoção do útero), após sofrer três abortos espontâneos. Por nutrir obsessão pela maternidade, a impossibilidade de ser mãe causou a Clara Nunes fortes abalos emocionais, superados pela entrega absoluta à carreira artística.[3]

Últimos anos de vida

Em 1980, Clara Nunes gravou o álbum “Brasil Mestiço”, que fez sucesso nas emissoras de rádio de todo o país com “Morena de Angola” (composta por Chico Buarque em sua homenagem), “Brasil Mestiço, Santuário da Fé” (de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro), “Peixe com Coco” (de Alberto Lonato, Josias e Maceió do Cavaco), claranunes7“Última Morada” (de Noca da Portela e Natal) e “Viola de Penedo” (de Luiz Bandeira). Ainda naquele ano, a cantora participou dos LPs “Cabelo de Milho” (de Sivuca) e “Fala Meu Povo” (de Roberto Ribeiro), e viajou para Angola representando o Brasil ao lado de Elba Ramalho, Djavan, Dorival Caymmi e Chico Buarque, entre outros.

Gravou em 1981 o LP “Clara”, com grande sucesso para a música “Portela na Avenida” (de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro), com a participação especial da Velha Guarda da Portela nesta faixa, e estreou o show “Clara Mestiça” (dirigido por Bibi Ferreira). Ainda naquele ano, a Odeon lançou uma coletânea intitulada “Sucesso de Ouro”.

Em 1982, a Odeon lançaria “Nação”, o último álbum de estúdio da cantora. O LP teve como destaques a faixa-título (de João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio), “Menino Velho” (de Romildo e Toninho), “Ijexá” (de Edil Pacheco), “Serrinha” (de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro) - uma homenagem dos compositores à escola de samba Prazer da Serrinha e ao Morro da Serrinha, reduto do jongo, situadas em Vaz Lobo, subúrbio carioca. Ainda naquele ano, Clara se apresentou na Alemanha ao lado de Sivuca e Elba Ramalho e participou do LP “Kasshoku”, lançado no Japão pela gravadora Toshiba/EMI, gravando um especial para a emissora de TV NHK.

Morte polêmica

Em 5 de Março de 1983, Clara Nunes se submeteu a uma aparentemente simples cirurgia de varizes, mas a cantora acabou tendo uma reação alérgica a um componente do anestésico. Clara sofreu uma parada cardíaca e permaneceu durante 28 dias internada na UTI da Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro. Neste interím, a cantora foi vítima de uma série de especulações que circulavam na mídia sobre sua internação, entre elas “inseminação artificial, aborto, tentativa de suicídio, surra de seu marido Paulo César Pinheiro”,[4] em episódio semelhante ao ocorrido na morte de Elis Regina, no ano anterior.

capa_claranunesNa madrugada de 2 de abril de 1983 - um Sábado de Aleluia -, Clara Nunes entrou oficialmente em óbito aos 39 anos de idade, vítima de um choque anafilático. A sindicância aberta pelo Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro na época foi arquivada, o que geraria por muitos anos suspeitas sobre as causas da morte da cantora. O corpo da cantora foi velado por mais de 50 mil pessoas na quadra da escola de samba Portela. O sepultamento no Cemitério São João Batista foi acompanhado por uma multidão de fãs e amigos. Em sua homenagem, a rua em Oswaldo Cruz onde fica a sede da Portela, sua escola de coração, recebeu seu nome.

Após a morte

Em 1986, a Velha Guarda da Portela interpretou “Flor do Interior” (de Manacéa), uma das muitas feita em homenagem à Clara Nunes, no disco “Doce Recordação” - produzido por Katsunori Tanaka e lançado no Japão. Outro compositor, Aluízio Machado (da Império Serrano), também compôs a música “Clara” em homenagem à cantora. Em 1988, Maria Gonçalves (irmã mais velha de Clara Nunes, que passou a criar a cantora quando esta tinha apenas quatro anos) reuniu várias peças do vestuário, adereços e objetos pessoais da cantora, e criou uma sala que abriga o acervo de sua obra em um espaço físico com cerca de 120 metros, anexado à creche que leva o seu nome em Caetanópolis.

Em 1989, a gravadora EMI-Odeon produziu a coletânea “Clara Nunes, O Canto da Guerreira”..[5] Também naquele ano, o selo WEA lançou para o mercado estadunidense o álbum “O Samba: Brazil Classics 2″, com vários artistas e incluindo Clara Nunes.

Três anos depois, a EMI-Odeon lançou “Série 2 em 1″, compilação em CD de dois LPs: “Brasil Mestiço” e “Nação”, e a gravadora norte-americana World Pacific lançou “Best of Clara Nunes” no mercado dos Estados Unidos. Em 1993, o selo Som Livre lançou “Clara Nunes - 10 anos” - em lembrança ao décimo aniversário de morte da cantora - e a EMI-Odeon lançou pela “Série 2 em 1″ os discos “Adoniran Barbosa” e “Adoniram Barbosa e Convidados”, este último também contou com a participação de Clara Nunes. Esta mesma gravadora lançaria em 1994 as coletâneas “O Canto da Guerreira”, “O Canto da Guerreira Volume 2″ e “Meus Momentos”. Também naquele ano, a gravadora Saci lançou o álbum “Homenagem a Mauro Duarte”, que contou com a voz de Clara Nunes, uma de suas maiores amigas e a sua principal intérprete.

Em 1995, a Odeon lançou “Clara Nunes com Vida”, álbum produzido por Paulo César Pinheiro e José Milton, no qual foram acrescidas as vozes de outros artistas - Emílio Santiago, Martinho da Vila, Chico Buarque, Nana Caymmi, Roberto Ribeiro, João Bosco, Elba Ramalho, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Alcione, Marisa Gata Mansa, Paulinho da Viola, Ângela Maria e João Nogueira - fazendo duetos com Clara Nunes, e “O Talento de Clara Nunes”, outra coletânea.

Em No ano seguinte, a EMI-Odeon reeditou a obra completa de Clara Nunes, que incluiam 16 discos com as capas reproduzidas do original, remasterizados no Estúdio Abbey Road, em Londres, considerado o melhor do mundo. Três anos depois, a cantora Alcione gravou “Claridade”, uma álbum com os maiores sucessos da carreira da amiga. Em 2001, foi apresentado no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, o musical “Clara Nunes Brasil Mestiço”, e no ano seguinte foi lançado o livro “Velhas Histórias, Memórias Futuras” de Eduardo Granja Coutinho, no qual o autor faz várias referências à cantora.

Em comemoração aos seus 60 anos, que seriam completados em 2003, a gravadora DeckDisc lançou “Um Ser de Luz - Saudação à Clara Nunes”, álbum produzido por Paulão Sete Cordas e que contou a participação de diversos artistas interpretando parte de seu repertório, como Mônica Salmaso (”Alvorecer”), Élton Medeiros (”Lama”), Rita Ribeiro (”Morena de Angola”), Mar’tnália (”Ijexá”), Fafá de Belém (”Sem Compromisso”), Renato Braz (”Menino Deus” e “Nação”), Falamansa (”Feira de Mangaio”), Monarco e Velha Guarda da Portela (”Peixe com Coco”), Cristina Buarque (”Derramando Lágrimas”), Dona Ivone Lara (”Juízo Final”), Nilze Carvalho (”A Deusa dos Orixás”), Teresa Cristina (”As Forças da Natureza”), Pedro Miranda (”Candongueiro”), Alfredo Del Penho (”Coisa da antiga”), Wilson Moreira (”O Mar Serenou”), Helen Calaça (”Basta um Dia”) e ainda participações de Seu Jorge, Walter Alfaiate e Elza Soares, entre outros.[6]

Em 2004, a Prefeitura de Caetanópolis inaugurou o Instituto Clara Nunes (anexo à Creche Clara Nunes), ambos coordenados pela irmã de Clara, Maria Gonçalves e lançou a idéia de se criar o “Museu Clara Nunes”, em memória de sua filha mais ilustre da cidade. O museu será no antigo cinema Clube Cedrense, que pertencia à fábrica têxtil Cedro-Cachoeira, no qual a cantora se apresentou pela primeira vez. Também naquele ano, a EMI lançou uma caixa em nove CDs reunindo os 16 LPs solos de Clara Nunes, raridades e participações da cantora em discos alheios e tributos e ainda a reedição dos primeiros discos da cantora, fase na qual interpretava versões de canções italianas, francesas e boleros românticos.

No ano seguinte, a mesma gravadora lançou “Clara Nunes canta Tom e Chico”, coletânea na qual compilou algumas gravações de discos anteriores da cantora, entre elas “Apesar de Você”, “Umas e Outras”, “Desencontro”, “Morena de Angola” e “Novo Amor” (todas de Chico Buarque, “Insensatez” e “A Felicidade” (de Tom Jobim e Vinícius de Moraes), além de “Sabiá” (da dupla Tom e Chico).

Em 2006 foi encontrada mais uma interpretação inédita de Clara Nunes. A composição “Quem Me Dera” (de Maurício Tapajós e Hermínio Bello de Carvalho) foi incluída no álbum póstumo de Maurício Tapajós, “Sobras Repletas”, que também trouxe uma outra composição, também em sua homenagem, desta vez feita em sua homenagem, “Surdina” (de Maurício Tapajós e Cacaso). Em 2007, o jornalista Vagner Fernandes lançou a biografia “Clara Nunes - Guerreira da Utopia”, que trouxe entrevistas com vários compositores e intérpretes, entre os quais Chico Buarque, Paulinho da Viola, Alcione, Hermínio Bello de Carvalho, Hélio Delmiro, Milton Nascimento, Monarco e Paulo César Pinheiro, além de familiares e amigos.

Discografia

Obra

claranunes2* 1966 - A Voz Adorável de Clara Nunes (Odeon) 4.127 cópias vendidas
* 1968 - Você Passa e Eu Acho Graça (Odeon) 7.542 cópias vendidas
* 1969 - A Beleza Que Canta (Odeon) 5.856 cópias vendidas
* 1971 - Clara Nunes (Álbum) (Odeon) 158.710 cópias vendidas
* 1972 - Clara Clarice Clara (Odeon) 164.542 cópias vendidas
* 1973 - Clara Nunes (Álbum de 1973) (Odeon) 250.120 cópias vendidas
* 1974 - Brasileiro Profissão Esperança (Odeon) 219.010 cópias vendidas
* 1974 - Alvorecer (Odeon) 784.028 cópias vendidas
* 1975 - Claridade (Odeon) 1.125.410 cópias vendidas
* 1976 - Canto das Três Raças (EMI-Odeon) 1.285.058 cópias vendidas
* 1977 - As Forças da Natureza (EMI-Odeon) 809.047 cópias vendidas
* 1978 - Guerreira (EMI-Odeon) 1.011.005 cópias vendidas
* 1979 - Esperança (Álbum) (EMI-Odeon) 900.485 cópias vendidas
* 1980 - Brasil Mestiço (EMI-Odeon) 2.002.450 cópias vendidas
* 1981 - Clara (EMI-Odeon) 811.587 cópias vendidas
* 1982 - Nação (EMI-Odeon) 1.254.998 cópias vendidas

Ao Vivo

* 2008 - Poeta, Moça e Violão (com Vinícius de Moraes e Toquinho) (Biscoito Fino) CD

Coletâneas

* 1979 - Sucessos de Ouro (EMI-Odeon) 573.568 cópias vendidas
* 1983 - Clara Morena (EMI-Odeon) 489.656 cópias vendidas
* 1984 - Alvorecer (Som Livre) 501.254 cópias vendidas
* 1984 - A Deusa dos Orixás (Som Livre) 415.074 cópias vendidas
* 1985 - Clara (EMI-Odeon) 480.081 cópias vendidas
* 1989 - O Canto da Guerreira (EMI) 400.456 cópias vendidas
* 1990 - O Canto da Guerreira Vol.2 (EMI) 500.125 cópias vendidas
* 1993 - 10 Anos (Som Livre) 200.425 cópias vendidas
* 2003 - Para Sempre Clara
* 2005 - Clara Nunes Canta Tom e Chico
* 2007 - Mestiça (EMI)
* 2008 - Sempre (Som Livre)

Tributos

* 1995 - Clara Nunes Com Vida (EMI) - Vários Artistas 205.855 cópias vendidas
* 1999 - Claridade (Globo/Universal) - Alcione
* 2003 - Um Ser de Luz - Uma Saudação a Clara Nunes - Vários Artistas

DVD

* 2008 - Clara Nunes (EMI - Globo Marcas) - Coletânea com todos os videoclipes da cantora exibidos no programa Fantástico - Rede Globo

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Vinícius de Moraes

agosto 21, 2009 por raquel  
Arquivado em música

Dele disse Carlos Drummond de Andrade: “Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural”.

O que torna Vinicius um grande poeta é a percepção do lado obscuro do homem. E a coragem de enfrentá-lo. Parte, desde o princípio, dos temas fundamentais: o mistério, a paixão e a morte. Quando deixa a poesia em segundo plano para se tornar show-man da MPB, para viver nove casamentos, para atravessar a vida viajando, Vinicius está exercendo, mais que nunca, o poder que Drummond descreve, sem dissimular sua imensa inveja: “Foi o único de nós que teve a vida de poeta”.

“São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher…”

Biografia

Marcus Vinitius da Cruz e Mello Moraes aos nove anos de idade parece que pressente o poeta: vai, com a irmã Lygia ao cartório na Rua São José, centro do Rio, e altera seu nome para Vinicius de Moraes. Nascido em 19-10-1913, na Rua Lopes Quintas, 114 - bairro da Gávea, na Cidade Maravilhosa, desde cedo demonstra seu pendor para a poesia. Criado por sua mãe, Lydia Cruz de Moraes, que, dentre outras qualidades, era exímia pianista, e ao lado do pai, Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, poeta bissexto, Vinicius cresce morando em diversos bairros do Rio, infância e juventude depois contadas em seus versos, que refletiam o pensamento da geração de 1940 em diante.

Em 1916, avinicius1 família muda-se para a rua Voluntários da Pátria, 129, no bairro de Botafogo, passando a residir com os avós paternos, Maria da Conceição de Mello Moraes e Anthero Pereira da Silva Moraes.

No ano seguinte mudam-se para a rua da Passagem, 100, no mesmo bairro. Nasce seu irmão Helius. Com a irmão Lydia, passa a freqüentar a escola primária Afrânio Peixoto, à rua da Matriz.

Em 1920, por disposição de seu avô materno, é batizado na maçonaria, cerimônia que lhe causaria grande impressão.

Após três outras mudanças, em 1922 a família transfere-se para a Ilha do Governador, na praia de Cocotá, 109-A.

Faz sua primeira comunhão na Matriz da rua Voluntários da Pátria, no ano seguinte.

Em 1924, inicia o Curso Secundário no Colégio Santo Inácio, na rua São Clemente. Começa a cantar no coro do colégio nas missas de domingo, criando fortes laços de amizade com seus colegas Moacyr Veloso Cardoso de Oliveira e Renato Pompéia da Fonseca Guimarães, este sobrinho de Raul Pompéia. Participa, como ator, em peças infantis.

Torna-se amigo dos irmãos Paulo e Haroldo Tapajóz, em 1927, com os quais começa a compor. Com eles, e alguns colegas do colégio, forma um pequeno conjunto musical que atua em festinhas, em casas de famílias conhecidas.

Compõe, no ano seguinte, com os irmãos Tapajóz, “Loura ou morena” e “Canção da noite”, que têm grande sucesso. Nessa época, namora invariavelmente todas as amigas de sua irmã Laetitia.

A família volta a morar na rua Lopes Quintas em 1929, ano em que Vinicius bacharela-se em Letras no Santo Inácio. No ano seguinte entra para a faculdade de Direito da rua do Catete, sem vocação especial. Defende tese sobre a vinda de d. João VI para o Brasil, para ingressar no “Centro Acadêmico de Estudos Jurídicos e Sociais” (CAJU), tornando-se amigo de Otávio de Faria, San Thiago Dantas, Thiers Martins Moreira, Antônio Galloti, Gilson Amado, Hélio Viana, Américo Jacobina Lacombe, Chermont de Miranda, Almir de Andrade e Plínio Doyle.

Em 1931, entra para o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR).

Forma-se em Direito e termina o Curso de Oficial da Reserva, em 1933. Estimulado por Otávio de Faria, publica seu primeiro livro, O caminho para a distância, na Schimidt Editora.

Forma e exegese, seu livro de poesias lançado em 1935, ganha o prêmio Felipe d’Oliveira.

Em 1936, substitui Prudente de Moraes Neto como representante do Ministério da Educação junto à Censura Cinematográfica. Publica, em separata, o poema “Ariana, a mulher”. Conhece o poeta Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, dos quais se torna amigo.

Em 1938, é agraciado com a primeira bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford, para onde parte em agosto daquele ano. Trabalha como assistente do programa brasileiro da BBC. Conhece, então, na casa de Augusto Frederico Schmidt, o poeta e músico Jayme Ovalle, de quem se tornaria um dos maiores amigos. Instado por outro grande amigo, Otávio de Faria, a se tornar um poeta mais com os pés no chão, e não o “inquilino do sublime” como, então, o chamou, lança Novos Poemas. Seguindo esta mesma linha, são lançados, posteriormente, Cinco Elegias, em 1943, e Poemas, Sonetos e Baladas, escrito em 1946, que já começam a mostrar o poeta sensual e lírico, mas, como ele próprio disse, um “poeta do cotidiano”.

No ano seguinte, casa-se por procuração com Beatriz Azevedo de Mello. No final desse ano, retorna ao Brasil devido à eclosão da II Grande Guerra. Parte da viagem é feita em companhia de Oswald de Andrade.

O ano de 1940 marca o nascimento de sua primeira filha, Suzana. Torna-se amigo de Mário de Andrade.

Estréia como crítico de cinema e colaborador no Suplemento Literário do jornal “A Manhã”, em companhia de Cecília Meireles, Manuel Bandeira e Afonso Arinos de Melo Franco, sob a orientação de Múcio Leão e Cassiano Ricardo, em 1941.

Niemeyer, Tom Jobim e Vinícius

Niemeyer, Tom Jobim e Vinícius

Em 1942, nasce seu filho Pedro. Favorável ao cinema silencioso, Vinicius inicia um debate sobre o assunto com Ribeiro Couto, que depois se estende à maioria dos escritores brasileiros mais em voga, e do qual participam Orson Welles e madame Falconetti. A convite do então prefeito de Belo Horizonte (MG), Juscelino Kubitschek, chefia uma caravana de escritores brasileiros àquela cidade, onde se liga por amizade a Hélio Pelegrino, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Otto Lara Resende. Juntamente com Rubem Braga e Moacyr Werneck de Castro, inicia a roda literária do Café Vermelhinho, no Rio de Janeiro, à qual se misturam a maioria dos jovens arquitetos e artistas plásticos da época, como Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Afonso Reidy, Jorge Moreira, José Reis, Alfredo Ceschiatti, Santa Rosa, Pancetti, Augusto Rodrigues, Djanira e Bruno Giorgi, entre outros. Conheceu a escritora argentina Maria Rosa Oliveira e, através dela, Gabriela Mistral. Freqüenta as domingueiras na casa de Aníbal Machado. Ainda nesse ano, faz extensa viagem ao Nordeste do Brasil acompanhando o escritor americano Waldo Frank, a qual muda radicalmente sua visão política, tornando-se um antifacista convicto. Na estada em Recife, conhece o poeta João Cabral de Melo Neto, de quem se tornaria, depois, grande amigo.

No ano seguinte, ingressa, por concurso, na carreira diplomática. Publica Cinco Elegias em edição mandada fazer por Manuel Bandeira, Aníbal Machado e Otávio de Faria.

Dirige, em 1944, o Suplemento Literário de “O Jornal”, onde lança, entre outros, Pedro Nava, Francisco de Sá Pires, Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Marcelo Garcia e Lúcio Rangel, em colunas assinadas, e publica desenhos de artistas plásticos até então pouco conhecidos, como Athos Bulcão, Maria Helena Vieira da Silva, Alfredo Ceschiatti, Carlos Scliar, Eros (Martin) Gonçalves e Arpad Czenes.

Em 1945, um grande susto: sofre grave desastre de avião na viagem inaugural do hidro “Leonel de Marnier”, perto da cidade de Rocha, no Uruguai. Em sua companhia estão Aníbal Machado e Moacyr Werneck de Castro. Colabora com vários jornais e revistas, como articulista e crítico de cinema. Escreve crônicas diárias para o jornal “Diretrizes”. Faz amizade com o poeta chileno Pablo Neruda.

No ano de 1946, assume seu primeiro posto diplomático: vice-consul do Brasil em Los Angeles, Califórnia (USA). Ali permanece por quase cinco anos, sem retornar ao seu país. Publica, em edição de luxo, com ilustrações de Carlos Leão, seu livro, Poemas, sonetos e baladas.

Vinicius, amante da sétima arte, inicia seus estudos de cinema com Orson Welles e Gregg Toland. Lança, com Alex Viany, a revista Film, em 1947.

Em 1949, João Cabral de Melo Neto tira, em sua prensa manual, em Barcelona, uma edição de cinqüenta exemplares de seu poema Pátria Minha.

Visita o poeta Pablo Neruda, no México, que se encontrava gravemente enfermo. Ali conhece o pinto Diogo Siqueiros e reencontra o pintos Di Cavalcanti. Morre seu pai. Volta ao Brasil, em 1950.

No ano seguinte, casa-se, pela segunda vez, com Lila Maria Esquerdo e Bôscoli. A convite de Samuel Wainer, começa a colaborar no jornal “Última Hora”, como cronista diário e posteriormente crítico de cinema.

Em 1952, é nomeado delegado junto ao Festival de Punta del Este, fazendo paralelamente sua cobertura para “Última Hora”. Terminado o evento, parte para a Europa, encarregado de estudar a organização dos festivais de cinema de Cannes, Berlim, Locarno e Veneza, no sentido da realização do Festival de Cinema de São Paulo, dentro das comemorações do IV Centenário da cidade. Em Paris, conhece seu tradutor francês, Jean Georges Rueff, com quem trabalha, em Estrasburgo, na tradução de suas Cinco Elegias. Sob encomenda do diretor Alberto Cavalcanti, com seus primos Humberto e José Francheschi, visita, fotografa e filma as cidades mineiras que compõem o roteiro do Aleijadinho, com vistas à realização de um filme sobre a vida do escultor.

Em 1953, nasce sua filha Georgiana. Compõe seu primeiro samba, música e letra, “Quando tu passas por mim”. Faz crônicas diárias para o jornal “A Vanguarda” e colabora no tablóide semanário “Flan”, de “Última Hora”. Parte para Paris como segundo secretário de Embaixada. Escreve Orfeu da Conceição, obra que seria premiada no Concurso de Teatro do IV Centenário da Cidade de São Paulo no ano seguinte, e que teve montagem teatral em 1956, com cenários de Oscar Niemeyer. Posteriormente transformada em filme (com o nome de Orfeu negro) pelo diretor francês Marcel Camus, em 1959, obteve grande sucesso internacional, tendo sido premiada com a Palma de Ouro no Festival de Cannes e com o Oscar, em Hollywood, como o melhor filme estrangeiro do ano. Nesse filme acontece seu primeiro trabalho com Antônio Carlos Jobim (Tom Jobim).

Antologia Poética

Antologia Poética

Sai da primeira edição de sua Antologia Poética. A revista “Anhembi” publica Orfeu da Conceição, em 1954.

No ano seguinte, compõe, em Paris, uma série de canções de câmara com o maestro Cláudio Santoro. Começa a trabalhar para o produtor Sasha Gordine, no roteiro do filme Orfeu negro. Volta ao Brasil em curta estada, buscando obter financiamento para a realização do filme. Diante do insucesso da missão, retorna a Paris em fins de dezembro.

Em 1956, retorna à pátria, no gozo de licença-prêmio. Nasce sua filha, Luciana. A convite de Jorge Amado, colabora no quinzenário “Para Todos”, onde publica, na primeira edição, o poema O operário em construção. A peça Orfeu da Conceição é encenada no Teatro Municipal, que aparece também em edição comemorativa de luxo, ilustrada por Carlos Scliar. As músicas do espetáculo são de autoria de Antônio Carlos Jobim, dando início a uma parceria que, tempos depois, com a inclusão do cantor e violonista João Gilberto, daria início ao movimento de renovação da música popular brasileira que se convencionou chamar de bossa nova. Retorna ao posto, em Paris, no final do ano.

Publica Livro de Sonetos, em edição de Livros de Portugal, em 1957. É transferido da Embaixada em Paris para a Delegação do Brasil junto à UNESCO. No final do ano é transferido para Montevidéu, regressando, em trânsito, ao Brasil.

Em 1958, sofre um grave acidente de automóvel. Casa-se com Maria Lúcia Proença. Parte para Montevidéu. Sai o LP “Canção do amor demais”, de músicas suas com Antônio Carlos Jobim, cantadas por Elizete Cardoso. No disco ouve-se, pela primeira vez, a batida da bossa nova, no violão de João Gilberto, que acompanha a cantora em algumas faixas, entre as quais o samba “Chega de saudade”, considerado o marco inicial do movimento.

1959 marca o lançamento do LP “Por toda a minha vida”, de canções suas com Jobim, pela cantora Lenita Bruno. Casa-se sua filha Susana.

No ano seguinte, retorna à Secretaria de Estado das Relações Exteriores. Em novembro, nasce seu neto Paulo. Sai a segunda edição de sua Antologia Poética, uma edição popular da peça Orfeu da Conceição e Recette de femme et autres poèmes, tradução de Jean-Georges Rueff.

Começa a compor com Carlos Lyra e Pixinguinha. Aparece Orfeu negro, em tradução italiana de P. A. Jannini, em 1961.

Dá início à composição de uma série de afro-sambas, em parceria com Baden Powell, entre os quais “Berimbau” e “Canto de Ossanha”. Com Carlos Lyra, compõe as canções de sua comédia musicada Pobre menina rica. Em agosto desse ano, 1962, faz seu primeiro show, que obteve grande repercussão, ao lado de Jobim e João Gilberto, na boate “Au Bon Gourmet”, iniciando a fase dos “pocket-shows”, onde foram lançados grandes sucessos internacionais como “Garota de Ipanema” e “Samba da benção”. Na mesma boate, faz apresentação com Carlos Lyra para apresentar “Pobre menina rica”, ocasião em que é lançada a cantora Nara Leão. Compõe, com Ary Barroso, as últimas canções do grande mestre da MPB, como “Rancho das Namoradas”. É lançado o livro Para viver um grande amor. Grava, como cantor, um disco com a atriz e cantora Odete Lara.

Em 1963, inicia uma parceria que produziria grandes sucessos com Edu Lobo. Casa-se com Nelita Abreu Rocha e retorna a Paris, assumindo posto na Delegação do Brasil junto à UNESCO.

No início da revolução de 1964, retorna ao Brasil e colabora com crônicas semanais para a revista “Fatos e Fotos”, ao mesmo tempo em que assinava crônicas sobre música popular para o “Diário Carioca”. Começa a compor com Francis Hime. Com Dorival Caymmi, participa de show muito sucesso na boate Zum-Zum, onde lança o Quarteto em Cy. Desse show é feito um LP.

1965 marca o lançamento de Cordélia e o peregrino, em edição do Serviço de Documentação do Ministério de Educação e Cultura. Ganha o primeiro e segundo lugares do I Festival de Música Popular de São Paulo, da TV Record, em canções de parceria com Edu Lobo e Baden Powell. Parte para Paris e St. Maxime para escrever o roteiro do filme “Arrastão”. Indispõem-se com o diretor e retira suas músicas do filme. Parte de Paris para Los Angeles a fim de encontrar-se com Jobim. Muda-se de Copacabana para o Jardim Botânico, à rua Diamantina, 20. Começa a trabalhar no roteiro do filme “Garota de Ipanema”, dirigido por Leon Hirszman. Volta ao show com Caymmi, na boate Zum-Zum.

No ano seguinte é lançado o livro Para uma menina com uma flor. São feitos documentários sobre o poeta pelas televisões americana, alemã, italiana e francesa. Seu “Samba da benção”, em parceria com Baden Powell, é incluído, em versão do compositor e ator Pierre Barouh, no filme “Un homme… une femme”, vencedor do Festival de Cannes do mesmo ano. Vinicius participa do juri desse festival.

Em 1967, sai a sexta edição de sua Antologia Poética e a segunda de Livro de Sonetos (aumentada). Faz parte do júri do Festival de Música Jovem, na Bahia. Ocorre a estréia do filme “Garota de Ipanema”. É colocado à disposição do governo de Minas Gerais no sentido de estudar a realização anual de um Festival de Arte em Ouro Preto.

Falece sua mãe, em 25 de fevereiro de 1968. Aparece a primeira edição de sua Obra Poética. Seus poemas são traduzidos para o italiano por Ungaretti.

Em 1969, é exonerado do Itamaraty. Casa-se com Cristina Gurjão, com quem tem uma filha chamada Maria.

No ano seguinte, casa-se com a atriz baiana Gesse Gessy. Inicia parceria com o violonista Toquinho.

Em 1971, muda-se para Salvador, Bahia. Viaja pela Itália, numa espécie de auto-exílio. No ano seguinte, com Toquinho, lança naquele país o LP “Per vivere un grande amore“.

A Pablo Neruda é lançado em 1973. Trabalha, no ano seguinte, no roteiro, não concretizado, do filme “Polichinelo”. Participa de show com Toquinho e a cantora Maria Creuza, no Rio. Confirmando os boatos de que o governo o perseguia, excursiona pela Europa e grava dois discos na Itália com Toquinho, em 1975.

Vinícius e Toquinho

Vinícius e Toquinho

Em 1976, novo casamento, agora com Marta Rodrigues Santamaria. Escreve as letras de “Deus lhe pague”, em parceria com Edu Lobo.

Participa de show na casa de espetáculos “Canecão”, no Rio, com Tom Jobim, Toquinho e Miúcha. Grava um LP em Paris, com Toquinho, em 1977.

No ano seguinte, excursiona com Toquinho pela Europa. Casa-se com Gilda de Queirós Matoso.

Em 1979, participa de leitura de poemas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP), a convite do líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva. Voltando de viagem à Europa, sofre um derrame cerebral no avião. Perdem-se, na ocasião, os originais de Roteiro lírico e sentimental da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

No dia 17 de abril de 1980, é operado para a instalação de um dreno cerebral. Morre, na manhã de 09 de julho, de edema pulmonar, em sua casa na Gávea, em companhia de Toquinho e de sua última mulher. Extraviam-se os originais de seu livro O deve e o haver.

Lançado postumamente, no Livro de Letras, publicado em 1991, estão mais de 300 letras de músicas de autoria de Vinícius, com melodias suas e de um sem número de compositores, ou parceirinhos, como carinhosamente os chamava.

Em 1992, é lançado um livro que hibernou anos junto ao poeta: Roteiro Lírico e Sentimental da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde Nasceu, Vive em Trânsito e Morre de Amor o Poeta Vinicius de Moraes.

No ano seguinte, uma coletânea de poesias é publicada no livro As Coisas do Alto - Poemas de Formação, mostrando a processo de formação do poeta, que é uma descida do topo metafísico à solidez do cotidiano.

Em 1996, é lançado livro de bolso com o título Soneto de Fidelidade e outros poemas, a preços populares. Essa publicação fica diversas semanas na lista dos mais vendidos, o que vem mostrar que mesmo após 16 anos de seu desaparecimento, sua poesia continuava viva entre nós.

Em 2001, a industria de perfumes Avon lança a “Coleção Mulher e Poesia - por Vinicius de Moraes”, com as fragrâncias “Onde anda você”, “Coisa mais linda”, “Morena flor” e “Soneto de fidelidade”.

Inconstante no amor (seus biógrafos dizem que teve, oficialmente, 09 mulheres), um dia foi questionado pelo parceiro Tom Jobim: “Afinal, poetinha, quantas vezes você vai se casar?”.

Num improviso de sabedoria, Vinicius respondeu: “Quantas forem necessárias.”

No dia 08/09/2006, é homenageado pelo governo brasileiro com sua reintegração post mortem aos quadros do Ministério das Relações Exteriores, ocasião em que foi inaugurado o “Espaço Vinicius de Moraes” no Palácio do Itamaraty - Rio de Janeiro (RJ).

Bibliografia:

Poesia/Prosa:

- O Caminho para a Distância, 1933 - Schmidt Ed, Rio (recolhida pelo autor)

- Ariana, a Mulher, 1936 - Pongetti - Rio

- Forma e Exegese, 1935 - Pongetti - Rio (Prêmio Felippe d’Oliveira)

- Novos Poemas, 1938 - José Olympio - Rio

- Cinco Elegias, 1943 - Pongetti - Rio (ed.feita a pedido de Manuel Bandeira, Aníbal Machado e Octávio de Farias)

- 10 poemas em manuscrito - 1945, Condé (edição ilustrada de 150 exemplares)

- Poemas, Sonetos e Baladas, 1946 - Ed. Gávea - São Paulo (ilustrações de Carlos Leão)

- Pátria Minha, 1949 - O Livro Inconsútil - Barcelona (ed.feita por João Cabral de Melo Neto em sua prensa manual)

Orfeu da Conceição - teatro

Orfeu da Conceição - teatro

- Orfeu da Conceição, 1956 - Editora do Autor - Rio (ilustrações de Carlos Scliar)

- Livro de Sonetos, 1957 - Livros de Portugal - Rio

- Novos Poemas (II), 1959 - Livraria São José - Rio.

- Orfeu da Conceição, 1960 - Livraria São José - Rio (edição popular)

- Para Viver um Grande Amor, 1962 - Ed. do Autor - Rio

- Cordélia e o Peregrino, 1965 - Ed.do Serviço de Documentação do M. da Educação e Cultura - Brasília

- Para uma Menina com uma Flor, 1966 - Ed. do Autor - Rio

- Orfeu da Conceição, 1967 - Editora Dois Amigos - Rio (com ilustrações de Carlos Scliar)

- O Mergulhador, 1968 - Atelier de Arte - Rio (fotos de Pedro de Moraes, filho do autor. Tiragem limitada a 2.000 exemplares, sendo 50 numerados em algarismos romanos de I a L e assinados pelos autores, comportando um manuscrito original e inédito de Vinícius de Moraes;450 exemplares numerados em algarismos arábicos e 51 a 500 e assinados pelos autores; e,finalmente, 1.500 exemplares numerados de 501 a 2.000)

- História natural de Pablo Neruda, 1974 - Ed.Macunaíma - Salvador.

- O falso mendigo, poemas de Vinicius de Moraes - 1978, Ed. Fontana - Rio

- Vinicius de Moraes - Poemas de muito amor, 1982 - José Olympio, Rio (ilustrações de Carlos Leão)

- A arca de Noé - 1991, Cia. das Letras - São Paulo

- Livro de Letras, 1991, Cia. das Letras - São Paulo

- Roteiro lírico e sentimental da Cidade do Rio de Janeiro e outros lugares por onde passou e se encantou o poeta, 1992 - Cia. das Letras - São Paulo

- As Coisas do Alto - Poemas de Formação, 1993 - Cia. das Letras - São Paulo

- Jardim Noturno - Poemas Inéditos, 1993 - Cia. das Letras - São Paulo

- Soneto de Fidelidade e outros Poemas, 1996 - Ediouro - Rio (ed. bolso)

- Procura-se uma Rosa, Massao Ohno Ed. - São Paulo (peça de teatro em colaboração com Pedro Bloch e Gláucio Gil)

Arca de Noé - LP

Arca de Noé - LP

- A Arca de Noé, Cia. das Letras - São Paulo

- O Cinema de Meus Olhos, Cia. das Letras - São Paulo

- Nossa Senhora de Paris, Ediouro - Rio

- Teatro em Versos - 1995, Cia. das Letras - São Paulo

- Rio de Janeiro (com Ferreira Gullar), Ed. Record - Rio (edições em alemão, francês, inglês, italiano e português).

- Querido Poeta - Correspondências de Vinicius de Moraes (organização de Ruy Castro), Cia. das Letras, São Paulo, 2003.

- Samba falado, Azougue Editorial, 2008.

Francês:

- Cinc Elégies, 1953 - Ed. Seghers - Paris (trad. de Jean-Georges Rueff)

- Recette de Femme et autres poèmes, 1960 - Ed. Seghers - Paris (escolha e tradução de Jean-Georges Rueff)

Italiano:

- Orfeo Negro, 1961 - Nuova Academia Editrice - Milão (tradução de P. A. Jannini)

Antologias:

- Antologia Poética, 1954 - Editora A Noite - Rio de Janeiro

- Obra poética - Poesia Completa e Prosa, Editora Nova Aguillar, 1968

Teatro

- Procura-se uma rosa, 1962 (com Pedro Bloch e Gláucio Gil.)

Sobre o Autor:

- O Poeta da Paixão, José Castello, 1994 - Cia. das Letras - São Paulo

- Vinícius de Moraes - Uma Geografia Poética, José Castello, 1996 - Ed. Relume Dumará

- Vinicius de Moraes - O múltiplo das paixões (biografia), coleção “Gente do Século”, Editora Três, 1999.

- Rio (coleção Perfis do Rio), Ed. Relume Duimará.

- Vinícius de Moraes, Pedro Lyra, Editora Agir

- Cancioneiro Vinicius de Moraes: Biografia e Obras escolhidas, Sergio Augusto, Jobim Music. (edição bilíngüe), 2007.

Discos de poesias:

- Vinicius em Portugal, 1969, Fiesta, IG 79.034 - Rio

- Antologia Poética, 1977, Philips, 6641 708, Série de Luxo - 2 Long-Plays (com participação de Tom Jobim, Edu Lobo, Toquinho, Luis Roberto, Jorginho, Roberto Menescal e Francis Hime)

Homenagens:

- Ciclo Vinícius de Moraes - Meu Tempo é Quando, 05 de janeiro a 23 de fevereiro de 1990, Centro Cultural do Banco do Brasil - Rio de Janeiro
Dados compilados dos livros “Vinicius de Moraes: O poeta da Paixão - uma biografia”, “Perfis do Rio”, de José Castello, e de “Obra Poética - Poesia Completa e Prosa”, Ed. Nov Aguillar - Rio, além dos constantes nos livros do autor e informações obtidas na Internet.

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Clarice Lispector

agosto 20, 2009 por raquel  
Arquivado em literatura

Ao mesmo tempo que ousava desvelar as profundezas de sua alma em seus escritos, Clarice Lispector costumava evitar declarações excessivamente íntimas nas entrevistas que concedia, tendo afirmado mais de uma vez que jamais escreveria uma autobiografia. Contudo, nas crônicas que publicou no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973, deixou escapar de tempos em tempos confissões que, devidamente pinçadas, permitem compor um auto-retrato bastante acurado, ainda que parcial. Isto porque Clarice por inteiro só os verdadeiramente íntimos conheceram e, ainda assim, com detalhes ciosamente protegidos por zonas de sombra. A verdade é que a escritora, que reconhecia com espanto ser um mistério para si mesma, continuará sendo um mistério para seus admiradores, ainda que os textos confessionais aqui coligidos possibilitem reveladores vislumbres de sua densa personalidade. Pedro Karp Vasquez

“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se amava verdadeiramente.” Clarice Lispector

clarice2Biografia:

1920

- Clarice Lispector nasce em Tchetchelnik, na Ucrânia, no dia 10 de dezembro, tendo recebido o nome de Haia Lispector, terceira filha de Pinkouss e de Mania Lispector. Seu nascimento ocorre durante a viagem de emigração da família em direção à América.

1922

- Seu pai consegue, em Bucareste, um passaporte para toda a família no consulado da Rússia. Era fevereiro quando foram para a Alemanha e, no porto de Hamburgo, embarcam no navio “Cuyaba” com destino ao Brasil. Chegam a Maceió em março desse ano, sendo recebidos por Zaina, irmã de Mania, e seu marido e primo José Rabin, que viabilizara a entrada da biografada e de sua família no Brasil mediante uma “carta de chamada”.  Por iniciativa de seu pai, à exceção de Tania - irmã, todos mudam de nome: o pai passa a se chamar Pedro; Mania, Marieta; Leia - irmã, Elisa; e Haia, em Clarice. Pedro passa a trabalhar com Rabin, já um próspero comerciante.

1925

- A família muda-se para Recife, Pernambuco, onde Pedro pretende construir uma nova vida. A doença de sua mãe, Marieta, que ficou paralítica, faz com que sua irmã Elisa se dedique a cuidar de todos e da casa.

1928

- Passa a freqüentar o Grupo Escolar João Barbalho, naquela cidade, onde aprende a ler. Durante sua infância a família passou por sérias crises financeiras.

1930

- Morre a mãe de Clarice no dia 21 de setembro. Nessa época, com nove anos, matricula-se no Collegio Hebreo-Idisch-Brasileiro, onde termina o terceiro ano primário. Estuda piano, hebraico e iídiche. Uma ida ao teatro a inspira e ela escreve “Pobre menina rica”, peça em três atos, cujos originais foram perdidos.  Seu pai resolve adotar a nacionalidade brasileira.

1931

- Inscreve-se para o exame de admissão no Ginásio Pernambucano. Já escrevia suas historinhas, todas recusadas pelo Diário de Pernambuco, que àquela época dedicava uma página às composições infantis. Isso se devia ao fato de que, ao contrário das outras crianças, as histórias de Clarice não tinham enredo e fatos - apenas sensações. Convive com inúmeros primos e primas.

1932

- É aprovada no exame de admissão e, junto com sua irmã Tania e sua prima Bertha, ingressa no tradicional Ginásio Pernambucano, fundado em 1825. Passa a visitar a livraria do pai de uma amiga. Lê  “Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato, que pegou emprestado, já que não podia comprá-lo.

1933

- Seu pai prospera e mudam-se para casa própria, no mesmo bairro.

1934

- Pedro, pai de Clarice, em Dezembro desse ano, decide transferir-se para a cidade do Rio de Janeiro.

1935

- Viaja para o Rio, em companhia de sua irmã Tania e de seu pai, na terceira classe do vapor inglês “Highland Monarch”. Vão morar numa casa alugada perto do Campo de São Cristóvão. Ainda nesse ano, mudam-se para uma casa na Tijuca, na rua Mariz e Barros. No colégio Sílvio Leite, na mesma rua de sua casa, cursa o quarta série ginasial. Lê romances adocicados, próprios para sua idade.

1936

- Termina o curso ginasial. Inicia-se na leitura de livros de autores nacionais e estrangeiros mais conhecidos, alugados em uma biblioteca de seu bairro. Conhece os trabalhos de Rachel de Queiroz, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Dostoiévski e Júlio Diniz.

1937

- Matricula-se no curso complementar (dois últimos anos do curso secundário) visando o ingresso na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro.

1938

- Transfere-se para o curso complementar do colégio Andrews, na praia de Botafogo. Às voltas com dificuldades financeiras, dá aulas particulares de  português e matemática. A relação professor/aluno seria um dos temas preferidos e recorrentes em toda a sua obra - desde o primeiro romance: Perto do Coração Selvagem. Ao mesmo tempo, aprende datilografia e faz inglês na Cultura Inglesa.

1939

- Inicia seus estudos na Faculdade Nacional de Direito. Faz traduções de textos científicos para revistas em um laboratório onde trabalha como secretária. Trabalha, também como secretária, em um escritório de advocacia.

1940

- Seu conto, Triunfo, é publicado em 25 de maio no semanário “Pan”, de Tasso da Silveira. Em outubro desse ano, é publicado na revista “Vamos Ler!”, editada por Raymundo Magalhães Júnior, o conto Eu e Jimmy. Esses trabalhos não fazem parte de nenhuma de suas coletâneas. Após a morte de seu pai, no dia 26 de agosto, a escritora - talvez motivada por esse acontecimento - escreve diversos contos: A fuga, História interrompida e O delírio. Esses contos serão publicados postumamente em A bela e a fera, de 1979. Passa a morar com a irmã Tania, já casada, no bairro do Catete. Consegue um emprego de tradutora no temido Departamento de Imprensa e Propaganda - DIP, dirigido por Lourival Fontes. Como não havia vaga para esse trabalho, Clarice ganha o lugar de redatora e repórter da Agência Nacional. Inicia-se, ai, sua carreira de jornalista. No novo emprego, convive com Antonio Callado, Francisco de Assis Barbosa, José Condé e, também, com Lúcio Cardoso, por quem nutre durante tempos uma paixão não correspondida: o escritor era homossexual. Com seu primeiro salário, entra numa livraria e compra “Bliss - Felicidade”, de Katherine Mansfield, com tradução de Erico Verissimo, pois sentiu afinidade com a escritora neozelandesa.

1941

- Em 19 de janeiro, publica a reportagem “Onde se ensinará a ser feliz”, no jornal “Diário do Povo”, de Campinas (SP), sobra a inauguração de um lar para meninas carentes realizada pela primeira-dama Darcy Vargas. Além de textos jornalísticos, continua a publicar textos literários. Cursando o terceiro ano de direito, colabora com a revista dos estudantes de sua faculdade, “A Época”, com os artigos Observações sobre o fundamento do direito de punir e Deve a mulher trabalhar? Passa a freqüentar o bar “Recreio”, na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, ponto de encontro de autores como Lúcio Cardoso, Vinicius de Moraes, Rachel de Queiroz, Otávio de Faria, e muitos mais.

1942

- Começa a namorar com Maury Gurgel Valente, seu colega de faculdade. Com 22 anos de idade, recebe seu primeiro registro profissional, como redatora do jornal “A Noite”. Lê Drummond, Cecília Meireles, Fernando Pessoa e Manuel Bandeira. Realiza cursos de antropologia brasileira e psicologia, na Casa do Estudante do Brasil. Nesse ano, escreve seu primeiro romance, Perto do coração selvagem.

1943

- Casa-se com o colega de faculdade Maury Gurgel Valente e termina o curso de Direito. Seu marido, por concurso, ingressa na carreira diplomática.

1944

- Muda-se para Belém do Pará (PA), acompanhando seu marido. Fica por lá apenas seis meses. Seu livro recebe críticas favoráveis de Guilherme Figueiredo, Breno Accioly, Dinah Silveira de Queiroz, Lauro Escorel, Lúcio Cardoso, Antonio Cândido e Ledo Ivo, entre outros. Álvaro Lins publica resenha com reparos ao livro mesmo antes de sua publicação, baseado na leitura dos originais. Qualifica o livro de “experiência incompleta”. Há os que pretendem não compreender o romance, os que procuram influências - de Virgínia Wolf e James Joyce, quando ela nem os tinha lido - e ainda os que invocam o temperamento feminino. Nas palavras de Lauro Escorel, as características do romance revelam uma “personalidade de romancista verdadeiramente excepcional, pelos seus recursos técnicos e pela força da sua natureza inteligente e sensível.” O casal volta ao Rio e, em 13/07/44, muda-se para Nápoles, em plena Segunda Guerra Mundial, onde o marido da escritora vai trabalhar. Já na saída do Brasil, Clarice mostra-se dividida entre a obrigação de acompanhar o marido e ter de deixar a família e os amigos. Quando chega à Itália, depois de um mês de viagem, escreve: “Na verdade não sei escrever cartas sobre viagens, na verdade nem mesmo sei viajar.” Termina seu segundo romance, O lustre.Perto do coração selvagem, considerado o melhor romance de 1943. Conhece Rubem Braga, então correspondente de guerra do jornal “Diário Carioca”.Recebe o prêmio Graça Aranha com Perto do coração selvagem, considerado o melhor romance de 1943. Conhece Rubem Braga, então correspondente de guerra do jornal “Diário Carioca”.

1945

- Dá assistência a brasileiros feridos na guerra, trabalhando em hospital americano. O pintor italiano Giorgio De Chirico pinta-lhe um retrato. Viaja pela Europa e conhece o poeta Giuseppe Ungaretti. O lustre é publicado no Brasil pela Livraria Agir Editora.

1946

- Após o lançamento do livro, Clarice vem ao Brasil como correio diplomático do Ministério das Relações Exteriores, aqui ficando por quase três meses. Nessa época, apresentado por Rubem Braga, conhece Fernando Sabino que a introduz a Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e, posteriormente, a Hélio Pellegrino. De volta à Europa, vai morar com a família em Berna, Suíça, para onde seu marido havia sido designado como segundo-secretário. Sua correspondência com amigos brasileiros a mantinha a par das novidades, em especial as trocadas com Fernando Sabino. A troca de cartas com o escritor, quase que diariamente, duraria até janeiro de 1969. A convite, passam as festas de fim de ano com Bluma e Samuel Wainer, em Paris.

clarice31947

- Em carta às irmãs, em janeiro de 47, de Paris, Clarice expõe seu estado de inadaptação:“Tenho visto pessoas demais, falado demais, dito mentiras, tenho sido muito gentil. Quem está se divertindo é uma mulher que eu detesto, uma mulher que não é a irmã de vocês. É qualquer uma.” Em carta a Lúcio Cardoso, que havia lhe enviado seu livro “Anfiteatro”, demonstra sua admiração pelas personagens femininas da obra.

1948

- Clarice fica grávida de seu primeiro filho. Para ela, a vida em Berna é de miséria existencial. A Cidade Sitiada, após três anos de trabalho, fica pronto. Terminado o último capítulo, dá à luz. Nasce então um complemento ao método de trabalho. Ela escreve com a máquina no colo, para cuidar do filho. Na crônica “Lembrança de uma fonte, de uma cidade“, Clarice afirma que, em Berna, sua vida foi salva por causa do nascimento do filho Pedro, ocorrido em 10/09/1948, e por ter escrito um dos livros “menos gostados” (a editora Agir recusara a publicação).

1949

- Clarice volta ao Rio. Seu marido é removido para a Secretaria de Estado, no Rio de Janeiro. A cidade sitiada é publicado pela editora “A Noite”. O livro não obtém grande repercussão entre o público e a crítica.

1950

- Escrevendo contos e convivendo com os amigos (Sabino, Otto, Lúcio e Paulo M. Campos), vê chegar a hora de partir: seguindo os passos de seu marido, retorna à Europa, onde mora por seis meses na cidade de Torquay, Inglaterra.
Sofre um aborto espontâneo em Londres. É atendida pelo vice-cônsul na capital inglesa, João Cabral de Melo Neto.

1951

- A escritora retorna ao Rio de Janeiro, em março. Publica uma seleta com seis contos na coleção “Cadernos de cultura”, editada pelo Ministério da Educação e Saúde. Falece sua grande amiga Bluma, ex-esposa de Samuel Wainer.

1952

- Cola grau na faculdade de direito, depois de muitos adiamentos. Volta a trabalhar em jornais, no período de maio a outubro, assinando a página “Entre Mulheres”, no jornal “Comício”, sob o pseudônimo de “Tereza Quadros”. Atendeu a um pedido do amigo Rubem Braga, um dos fundadores do jornal. Nesse setembro, já grávida, embarca para a capital americana onde permanecerá por oito anos. Clarice inicia o esboço do romance A veia no pulso, que viria a ser A Maçã no Escuro, livro publicado em 1961.

1953

- Em 10 de fevereiro, nasce Paulo, seu segundo filho. Ela continua a escrever A Maçã no Escuro, em meio a conflitos domésticos e interiores. Mãe, Clarice Lispector divide seu tempo entre os filhos, A Maçã no Escuro, os contos de Laços de Família e a literatura infantil. Nos Estados Unidos, Clarice conhece o renomado escritor Erico Veríssimo e sua esposa Mafalda, dos quais torna-se grande amiga. O escritor gaúcho e sua esposa são  escolhidos para padrinhos de Paulo. Não tem sucesso seu projeto de escrever uma crônica semanal para a revista “Manchete”. Tem a agradável notícia de que seu romance Perto do coração selvagem seria traduzido para o francês.

1954

- É lançada a primeira edição francesa de Perto do coração selvagem, pela Editora Plon, com capa de Henri Matisse, após inúmeras reclamações da escritora sobre erros na tradução. Em julho, com os filhos, viaja para o Brasil, aqui ficando até setembro. De volta aos Estados Unidos, interrompe a elaboração de A maçã no escuro e se dedica, por cinco meses, a escrever seis contos encomendados por Simeão Leal.

1955

- Retorna a escrever o novo romance e contos. Sabino, que leu os seis contos feitos sob encomenda, os acho “obras de arte”.

1956

- Termina de escrever A Maçã no Escuro (até então com o titulo de A veia no pulso). Érico Veríssimo e família retornam ao Brasil, não sem antes aceitarem serem os padrinhos de Pedro e Paulo. Entre os escritores, inicia-se uma vasta correspondência. A escritora e filhos vêm passar as férias no Brasil e Clarice aproveita para tentar a publicação de seu novo romance e os novos contos. Apesar de todo o empenho de Fernando Sabino e Rubem Braga, os livros não são editados. A escritora dá sinais de sua indisposição para com o tipo de vida que leva.

1957

- Rompe unilateralmente o contrato com Simeão Leal e autoriza Sabino e Braga a encaminharem seus contos - nessa altura em número de quinze - para serem publicados no “Suplemento Cultural” do jornal “O Estado de São Paulo”. Seu casamento vive momentos de tensão.

1958

- Conhece e se torna amiga da pintora Maria Bonomi. É convidada a colaborar com a revista “Senhor”, prevista para ser lançada no início do ano seguinte. Erico Verissimo escreve informando estar autorizado a editar seu romance e, também, seus contos pela Editora Globo, de Porto Alegre. 1.000 exemplares - dos mais de 1.700 remanescentes - de “Près du coeur sauvage” são incinerados, por falta de espaço de armazenamento. O casamento de Clarice dá sinais de seu final.

clarice11959

- Separa-se do marido e, em julho, regressa ao Brasil com seus filhos. Seu livro continua inédito. A escritora resolve comprar o apartamento onde está residindo, no bairro do Leme, e, para isso, busca aumentar seus ganhos. Sob o pseudônimo de “Helen Palmer”, inicia, em agosto, uma coluna no jornal “Correio da Manhã”, intitulada “Correio feminino - Feira de utilidades”.

1960

- Publica, finalmente, Laços de Família, seu primeiro livro de contos, pela editora Francisco Alves. Começa a assinar a coluna “Só para Mulheres”, como “ghost-writer” da atriz Ilka Soares, no “Diário da Noite”, a convite do jornalista Alberto Dines. Assina, com a Francisco Alves, novo contrato para a publicação de A maçã no escuro. Torna-se amiga da escritora Nélida Piñon.

1961

- Publica o romance A maçã no escuro. Recebe o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, por Laços de família.

1962

- Passa a assinar a coluna “Children’s Corner”, da seção “Sr. & Cia.”, onde publica contos e crônicas. Visita, com os filhos, seu ex-marido que se encontra na Polônia. Recebe o prêmio Carmen Dolores Barbosa (oferecido pela senhora paulistana de mesmo nome), por A maçã no escuro, considerado o melhor livro do ano.

1963

- A convite, profere no XI Congresso Bienal do Instituto Internacional de Literatura Ibero-Americana, realizado em Austin - Texas, conferência sobre o tema “Literatura de vanguarda no Brasil. Conhece Gregory Rabassa, mais tarde tradutor para o inglês de A maçã no escuro. A paixão segundo G. H. é escrito em poucos meses, sendo entregue à Editora do Autor, de Sabino e Braga, para publicação. Compra um apartamento em construção no bairro do Leme.

1964

- Publica o livro de contos A legião estrangeira e o romance A Paixão Segundo G. H., ambos pela Editora do Autor. Em dezembro, o juiz profere a sentença que poria fim ao processo de separação de Clarice e Maury.

paixao_gh1965

- Em maio, muda-se para o apartamento comprados em 1963. Sua obra passa a ser vista com outros olhos - pela crítica e pelo público leitor - após A paixão segundo G. H. Resultado de uma seleta de trechos de seus livros, adaptados por Fauzi Arap, é encenada no Teatro Maison de France o espetáculo Perto do coração selvagem, com José Wilker, Glauce Rocha e outros. Dedica-se à educação dos filhos e com a saúde de Pedro, que apresenta um quadro de esquizofrenia, exigindo cuidados especiais. Apesar de traduzida para diversos idiomas e da republicação de diversos livros, a situação financeira de Clarice é muito difícil.

1966

- Na madrugada de 14 de setembro a escritora dorme com um cigarro aceso , provocando um incêndio. Seu quarto ficou totalmente destruído. Com inúmeras queimaduras pelo corpo, passou três dias sob o risco de morte - e dois meses hospitalizada. Quase tem sua mão direita - a mais afetada - amputada pelos médicos. O acidente mudaria em definitivo a vida de Clarice.

1967

- As inúmeras e profundas cicatrizes fazem com que a escritora caia em depressão, apesar de todo o apoio recebido de seus amigos. Não foi só um ano de acontecimentos ruins. Começa a publicar em agosto - a convite de Dines - crônicas no “Jornal do Brasil”, trabalho que mantém por seis anos. Lança o livro infantil O mistério do coelho pensante, pela José Álvaro Editor. Em dezembro, passa a integrar o Conselho Consultivo do Instituto Nacional do Livro.

1968

- Em maio, o livro O mistério do coelho pensante é agraciado com a “Ordem do Calunga”, concedido pela Campanha Nacional da Criança. Entrevista personalidades para a revista “Manchete” na seção “Diálogos possíveis com Clarice Lispector”. Participa da manifestação contra a ditadura militar, em junho, chamada “Passeata dos 100 mil”. Morrem seus amigos e escritores Lúcio Cardoso e Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta). É nomeada assistente de administração do Estado. Profere palestras na Universidade Federal de Minas Gerais e na Livraria do Estudante, em Belo Horizonte. Publica A mulher que matou os peixes, outro livro infantil, ilustrado por Carlos Scliar.

1969

- Publica seu “hino ao amor”: Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, pela Editora Sabiá. O romance ganha o prêmio “Golfinho de Ouro”, do Museu da Imagem e do Som. Viaja à Bahia onde entrevista para a “Manchete” o escritor Jorge Amado e os artistas Mário Cravo e Genaro. Em 14/08 é aposentada pelo INPS - Instituto Nacional de Previdência Social. Seu filho Paulo, mora nos Estados Unidos desde janeiro, num programa de intercâmbio cultural. Seu irmão Pedro, em tratamento psiquiátrico, esteve internado por um mês, em junho.

agua_viva1970

- Começa a escrever um novo romance, com o título provisório de Atrás do pensamento: monólogo com a vida. Mais adiante, é chamado Objeto gritante. Foi lançado com o título definitivo de Água viva. Conhece Olga Borelli, de que se tornaria grande amiga.

1971

- Publica a coletânea de contos Felicidade clandestina, volume que inclui O ovo e a galinha, escrito sob o impacto da morte do bandido Mineirinho, assassinado pela polícia com treze tiros, no Rio de Janeiro. Há, também, um conjunto de escritos em que rememora a infância em Recife. Encarrega o professor Alexandre Severino da tradução, para o inglês, de Atrás do pensamento: monólogo com a vida. Dez de seus contos já publicados constam de “Elenco de cronistas modernos”, lançado pela Editora Sabiá.

1972

- Retoma a revisão de Atrás do pensamento, com o qual não estava satisfeita. Faz inúmeras alterações no texto e passa a chamá-lo Objeto gritante. Repensando o romance, procura distrair-se. Durante um mês posa para o pintor  Carlos Scliar, em Cabo Frio (RJ).

1973

- Publica o romance Água viva, após três anos de elaboração, pela Editora Artenova, que lançaria também, nesse ano, A imitação da rosa, quinze contos já publicados anteriormente em outras coletâneas. Alberto Dines, em carta à escritora, diz sobre Água viva: “[...] É menos um livro-carta e, muito mais, um livro música. Acho que você escreveu uma sinfonia”. Viaja à Europa com a amiga Olga Borelli. Clarice deixa de colaborar com o “Jornal do Brasil”, face à demissão de Alberto Dines, no mês de dezembro.

1974

- Para manter seu nível de renda, aumenta sua atividade como tradutora. Verte, entre outros, “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, adaptado para o público juvenil, pela Ediouro. Publica, pela José Olympio Editora, outro livro infantil, A vida íntima de LauraA via crucis do corpo e Onde estivestes de noite. Uma curiosidade: a primeira edição de Onde estivestes de noite foi recolhida porque foi colocado, erroneamente, um ponto de interrogação no título. Seu cão, Ulisses, lhe morde o rosto, fazendo com que se submeta a cirurgia plástica reparadora reparadora realizada por seu amigo Dr. Ivo Pitanguy. Lê, em Brasília (DF), a convite da Fundação Cultural do Distrito Federal, a conferência “Literatura de vanguarda no Brasil”, que já apresentara no Texas. Participa, em Cali - Colômbia, do IV Congresso da Nova Narrativa Hispano-americana. Seu filho, Paulo, vai morar sozinho, em um apartamento próximo ao da escritora. Pedro vai morar com o pai, em Montevidéu - Uruguai.

1975

- Tendo como companheira de viagem a amiga Olga Borelli, participa do I Congresso Mundial de Bruxaria, em Bogotá, Colômbia. No dia de sua apresentação sente-se indisposta e pede a alguém que leia o conto O ovo e a galinha, não apresentando a fala sobre a magia que havia preparado para a introdução da leitura. Muito embora minimizada, essa participação tem muito a ver com as palavras ditas por Otto Lara Resende, conhecido escritor, em um bate-papo com José Castello: “Você deve tomar cuidado com Clarice. Não se trata de literatura, mas de bruxaria.” Otto se baseava em estudos feitos por Claire Varin, professora de literatura canadense que escreveu dois livros sobre a biografada. Segundo ela, só é possível ler Clarice tomando seu lugar - sendo Clarice. “Não há outro caminho”, ela garante.  Para corroborar sua tese, Claire cita um trecho da crônica A descoberta do mundo, onde a escritora diz: “O personagem leitor é um personagem curioso, estranho. Ao mesmo tempo que inteiramente individual e com reações próprias, é tão terrivelmente ligado ao escritor que na verdade ele, o leitor, é o escritor.” Traduz romances, como “Luzes acesas”, de Bella Chagall, “A rendeira”, de Pascal Lainé, e livros policiais de Agatha Christie. Ao longo da década, faz adaptações de obras de Julio Verne, Edgar Allan Poe, Walter Scott e Jack London e Ibsen. Lança Visão do esplendor, com trabalhos já publicados na coluna “Children’s Corner”, da revista “Senhor” e também no “Jornal do Brasil”. Publica De corpo inteiro, com algumas entrevistas que fizera anteriormente para revistas cariocas. É muito elogiada quando visita Belo Horizonte, fato que a deixa contrariada. Passa a dedicar-se à pintura. Morre, dia 28 de novembro, seu grande amigo e compadre Erico Verissimo. Reúne trabalhos de Andréa Azulay num volume artesanal ilustrado por Sérgio Mata, intitulado “Meus primeiros contos”. Andréa tinha, então, dez anos de idade.

1976

- Seu filho Paulo casa-se com Ilana Kauffmann. Participa, em Buenos Aires, Argentina, da Segunda Exposición - Feria Internacional del Autor al Lector, onde recebe muitas homenagens. É agraciada, em abril, com o prêmio concedido pela Fundação Cultural do Distrito Federal, pelo conjunto de sua obra. Grava depoimento no Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro, em outubro, conduzido por Affonso Romano de Sant’Anna, Marina Colasanti e por João Salgueiro, diretor do MIS. Em maio, corre o boato de que a escritora não mais receberia jornalistas. José Castello, biógrafo e escritor, nessa época trabalhando no jornal “O Globo”, mesmo assim telefona e consegue marcar um encontro. Após muitas idas e vindas é recebido. Trava então o seguinte diálogo com Clarice:
J.C. “- Por que você escreve?
C.L. “- Vou lhe responder com outra pergunta: - Por que você bebe água?”
J.C. “- Por que bebo água? Porque tenho sede.”
C.L. “- Quer dizer que você bebe água para não morrer. Pois eu também: escrevo para me manter viva.”
Enquanto escreve A hora da estrela com a a ajuda da amiga Olga, toma notas para o novo romance, Um sopro de vida. Revê Recife e visita parentes. Em dezembro, “Fatos e Fotos Gente”, revista do grupo “Manchete”, publica entrevista feita com a artista Elke Maravilha, a primeira de uma série que se estenderia até outubro de 1977.

1977

- A revista “Fatos e Fotos Gente” publica, em janeiro, entrevista feita pela escritora com Mário Soares, primeiro-ministro de Portugal. O jornal “Última Hora” passa a publicar, a partir de fevereiro, semanalmente, as suas crônicas. Ainda nesse mês, é entrevistada pelo jornalista Júlio Lerner para o programa “Panorama Especial”, TV Cultura de São Paulo, com o compromisso de só ser transmitida após a sua morte. Escreve um livro para crianças, que seria publicado em 1978, sob o título Quase de verdade. Escreve, ainda, doze histórias infantis para o calendário de 1978  da fábrica de brinquedos “Estrela”, intitulado Como nasceram as estrelas. Vai à França e retorna inesperadamente. Publica A hora da estrela, pela José Olympio, com introdução - “O grito do silêncio” - de Eduardo Portella. Esse livro seria adaptado para o cinema, em 1985, por Suzana Amaral. A editora Ática lança nova edição de A legião estrangeira, com prefácio de Affonso Romano de Sant’Anna. Clarice morre, no Rio, no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes do seu 57° aniversário vitimada por uma súbita obstrução intestinal, de origem desconhecida que, depois, veio-se a saber, ter sido motivada por um adenocarcinoma de ovário irreversível.  O enterro aconteceu no Cemitério Comunal Israelita, no bairro do Caju, no dia 11. Vai ao ar, pela TV Cultura, no dia 28/12, a entrevista gravada em fevereiro desse ano.

hora_estrela1978

- Três livros póstumos são publicados: o romance Um sopro de vida - Pulsações, pela Nova Fronteira, a partir de fragmentos em parte reunidos por Olga Borelli; o de crônicas Para não esquecer, e o infantil, Quase de verdade, em volume autônomo, pela Ática. Para não esquecer é composto de crônicas que haviam sido publicadas na segunda parte do livro A legião estrangeira, em 1964, que compunham a seção “Fundo de Gaveta” do citado livro. A hora da estrela é agraciada com o prêmio Jabuti de “Melhor Romance”. A paixão sendo G. H. é publicada na França, com tradução de Claude Farny.

1979

- É publicado A bela e a fera, pela Nova Fronteira, contendo contos publicados esparsamente em jornais e revistas. Estréia, no teatro Ruth Escobar, em São Paulo, Um sopro de vida, baseado em livro de mesmo nome, com adaptação de Marilena Ansaldi e direção de José Possi Neto.

1981

- “Clarice Lispector - Esboço para um retrato”, de Olga Borelli, é lançado pela Nova Fronteira.

1984

- Reunindo a quase totalidade de crônicas publicadas no Jornal do Brasil, no período de 1967 a 1973, é lançado “A descoberta do mundo”, organização de Paulo Gurgel Valente, filho da autora. A Éditions des Femmes, da França, lança, em sua coleção “La Bibliotèque des voix”, fita cassete com trechos de La passion selon G. H., lidos pela atríz Anouk Aimée.

1985

- A hora da estrela recebe dois prêmios na 36ª edição do Festival de Berlim: da Confederação Internacional de Cineclubes - Cicae, e da Organização Católica Internacional do Cinema e do Audiovisual - Ocic. O longa-metragem de mesmo nome, dirigido por Suzana Amaral, com roteiro de Alfredo Oros também é premiado: Marcélia Cartaxo recebe o Urso de Prata de “Melhor Atriz”.

Outros acontecimentos

Os 10 anos da morte da escritora são lembrados com diversas homenagens em sua memória. É aberto ao público o conjunto de documentos que viria a constituir o Arquivo Clarice Lispector do Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa - FCRB, no Rio de Janeiro, constituído de documentos doados por Paulo Gurgel Valente.
Em 1990, a Francisco Alves Editora inicia a reedição da obra da escritora. A paixão segundo G. H. é encenada na capital francesa, no teatro Gérard Philippe, em montagem de Alain Neddam. Diane E. Marting, em 1993, publica “Clarice Lispector. A Bio-Bibliography”, pela Westport: Greenwood Press, nos Estados Unidos. Em 1996, é lançada a antologia “Os melhores contos de Clarice Lispector”, pela editora Global.
Estréia no Rio de Janeiro “Clarice - Coração selvagem”, adaptado e dirigido por Maria Lúcia Lima, com Aracy Balabanian, em 1998.
No ano seguinte, “Que mistérios tem Clarice”, adaptado por Luiz Arthur Nunes e Mário Piragibe estréia no teatro N. E. X. T.
Fernando Sabino, em 2001, organiza e publica, pela Record, “Cartas perto do coração”, contendo correspondência que manteve com a escritora de 1946 a 1969.
A editora Rocco lança, em 2002, “Correspondências - Clarice Lispector”, antologia de cartas de e para a escritora, seleção de Teresa Montero.
No aniversário de Clarice, 10/12/2002, a Embaixada do Brasil na Ucrânia e a Prefeitura de Tchetchelnik se associam em homenagem à memória da escritora, inaugurando uma placa com dados biográficos  gravados em russo e em português, que é afixada na entrada da sede da administração municipal.

Em 2004, os manuscritos de A hora da estrela e parte dos livros que pertenciam à biblioteca pessoal de Clarice Lispector são confiadas por Paulo Gurgel Valente à guarda do Instituto Moreira Salles, que lança, em dezembro, edição especial dos “Cadernos de Literatura Brasileira”, dedicada à vida e à obra da autora.

Em artigo publicado no jornal “The New York Times”, no dia 11/03/2005, a escritora foi descrita como o equivalente de Kafka na literatura latino-americana. A afirmação foi feita por Gregory Rabassa, tradutor para o inglês de Jorge Amado, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e de Clarice. No dia 13/01, foi discutido o viés judaico na obra da autora no Centro de História Judaica em Nova York.

O Consulado-Geral do Brasil em Córdoba - Argentina, participou, em 2007, de homenagem, dos alunos do 6º ano do nível médio, à escritora Clarice Lispector. O fato mereceu destaque na página de divulgação de eventos culturais do Ministério das Relações Exteriores. Naquela cidade encontram-se 47 escolas que ensinam a Língua Portuguesa e aspectos da cultura e literatura brasileira. O Consulado-Geral também conta com uma pequena biblioteca, que atende ao público interessado nesses assuntos, embora não haja ali nenhuma obra da citada escritora. No entanto, têm sido publicadas, nos últimos tempos, notas sobre a vida e a obra de Clarice Lispector, na imprensa local.

Dados obtidos em livros da autora, sites da Internet, nos Cadernos de Literatura Brasileira - Instituto Moreira Salles, no “Inventário das Sombras” de José Castello e fornecidos por João Pires, amigo do Releituras.

Fonte: Releituras

Bibliografia:

Obras da autora:

Romances:

Perto do Coração Selvagem (1943);

O Lustre (1946)

A Cidade Sitiada (1949)

A Maçã no Escuro (1961)

A Paixão segundo G.H. (1964)

Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres (1969)

Água Viva (1973)

Um Sopro de Vida - Pulsações (1978)

Novela:


A hora da estrela (1977)

Contos:


Alguns contos (1952)

Laços de família (1960)

A legião estrangeira (1964)

Felicidade clandestina (1971)

A imitação da rosa (1973)

A via crucis do corpo (1974)

Onde estivestes de noite? (1974)

A bela e a fera (1979)

Correspondência:

Cartas perto do coração (2001) - Organização de Fernando Sabino

Correspondência - Clarice Lispector (2002) - Organização de Teresa Cristina M. Ferreira

Crônicas:


Visão do esplendor - Impressões leves  (1975)

Para não esquecer (1978) - contos inicialmente publicados em Laços de família.

A descoberta do mundo (1984)

Entrevistas:


De corpo inteiro (1975)

Literatura  infantil:


O mistério do coelho pensante (1967) - Escrito em inglês e traduzido por Clarice

A mulher que matou os peixes (1968)

A vida íntima de Laura (1974)

Quase de verdade (1978)

Como nasceram as estrelas (1987)

Antologias:


Seleta de Clarice Lispector (1975) - Organização de Renato Cordeiro Gomes

Clarice Lispector (1981) - Organização de Benjamin Abdala Jr. e Samira Y. Campedelli

O primeiro beijo & outros contos, de Clarice Lispector (1991)

Os melhores contos de Clarice Lispector (2001) - Organização de Walnice N. Galvão

Aprendendo a viver (2004)

Livros publicados no exterior


Clarice Lispector
tem seus livros publicados em diversos países do mundo: Alemanha, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos da América, França, Israel, Holanda, Inglaterra, Itália, Noruega, Polônia, Rússia, Suécia, República Tcheca e Turquia. Citamos alguns, a título de exemplo:

Die Passion nach G.H. (A paixão segundo G. H.) (1995), tradução de Pieer Sibast

La manzana en la obscuridad (A maçã no escuro) (1974), tradução de Juan García Gayo

L’heure de l’étoile (A hora da estrela) (1989), tradução de Marguerite Wünscher

Osher samuy (Felicidade clandestina) (2001), tradução de Mirian Tivon

The Foreign Legion (A legião estrangeira) (1986), tradução de Giovanni Pontiero

The Stream of Life (Água viva) (1989), tradução de Elizabeth Lowe e outros

Dove siete stati di notte (Onde estivestes de noite) (1994), tradução de Adelina Aletti

Zivá voda (Água viva) (2000), tradução de Pavla Lidmilová

Sobre a autora:

BORELLI, Olga. Clarice Lispector: Esboço para um possível retrato. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

BOSI, Alfredo. Clarice Lispector. In: História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1989.

CASTELLO, José.  Clarice Lispector. In: O Inventário das Sombras. Rio de Janeiro: Editora Record, 1999.

FITZ, Earl Eugene. Sexuality and Being in the Poststructuralist Universe of Clarice Lispector - The Difference off Desire. Texas: University of Texas Press, 2001.

FREIXAS, Laura. Clarice Lispector. Coleção Vidas literárias. Barcelona: Omega, 2001.

GOTLIB, Nádia B. Clarice - uma vida que se conta. São Paulo: Ática, 1995.

GUIDIN, Márcia Lígia. A hora da estrela de Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 1996. (Roteiro de Leitura).

LEITE, Ligia Chiappini Moraes. O foco narrativo. São Paulo: Ática, 1985. (Série Princípios).

NOLASCO, Edgar Cézar. Clarice Lispector: nas entrelinhas da escritura. São Paulo: Annablume, 2001.

NOVELLO, Nicolino. O ato criador de Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Presença/MinC/Pró-Memória/INL, 1987.

PÉCAUT, Daniel. Os intelectuais e a política no Brasil. São Paulo: Ática, 1990.

ROSENBAUM, Yudith. Metamorfoses do mal: uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Edusp, 1999.

VARIN, Claire. Línguas de fogo - Ensaio sobre Clarice Lispector. Tradução de Lúcia Peixoto Cherem, São Paulo: Limiar, 2002.

WALDMAN, Berta. Clarice Lispector - A paixão segundo C. L. São Paulo: Escuta, 1992.

Filmografia:


A hora da estrela (Brasil, 1985, 96min).

xDireção: Suzana Amaral.
Elenco: Marcélia Cartaxo, José Dumont e Tamara Taxman.

O corpo (Brasil, 1991, 80 min).

Direção: José Antônio Garcia
Elenco: Antônio Fagundes, Marieta Severo, Cláudia Jimenez, Carla Camurati, Sérgio Mamberti e outros.

Chamada final (Brasil/Alemanha/China e EUA, 1994)

Direção: Ana Maria Magalhães
Elenco: Claudia Ohana, Guilherme Leme e outros.

Ruído de passos (Brasil, 1995 - curta-metragem)

Direção: Denise Tavares Gonçalves.

Clandestina felicidade (Brasil, 1998 - curta metragem que trata da infância da autora)

Direção: Beto Normal e Marcelo Gomes
Elenco: Luisa Phebo.

Macabéia (Brasil, 2000 -curta-metragem)

Direção de Erly VieiraJr., Lizandro Nunes e Virgínia Jorge.

Aeroporto em o embarque (Brasil, 2002 - curta-metragem)

direção: Nicole Algranti
Elenco: Marcélia Cartaxo.

O ovo (Brasil, 2003 - curta-metragem)

Direção: Nicole Algranti
Roteiro: Luiz Carlos Lacerda.

Televisão

Feliz Aniversário, Rede Globo, 1978

Especial Clarice Lispector - TV Cultura, 1999

A hora da estrela, Rede Globo, 2003

Teatro:


Perto do coração selvagem
(1965)

Direção: Fauzi Arap
Elenco: Glauce Rocha, José Wilker e outros

Um sopro de vida (1979)

Direção: José Possi Neto
Elelnco: Marilena Ansaldi.

A hora da estrela (1984)

Direção: Naum Alves de Souza
Elenco: Maria Bethânia.

A paixão segundo G. H. (1989)

Direção: Cibele Forjaz
Elenco: Marilena Ansaldi.

A pecadora queimada e os anjos harmoniosos (1992)

Direção: José Antônio Garcia
Elenco: Sérgio Mambertti e outros.

A mulher que matou os peixes (1994)

Direção: Lúcia Coelho
Elenco: Zezé Polessa.

A mulher que matou os peixes (1998)

Adaptação de Adriane Azenha.

A hora da estrela (1998)

Direção: Roberto Vignatti
Elenco: Alexandra Tavares.

Que mistérios tem Clarice? (1998)

Direção: Luiz Arthur Nunes
Elenco: Rita Elmôr (monólogo)

Clarice - Coração selvagem (1998)

Direção: Maria Lucya de Lima
Elenco: Aracy Balabanian.

Quase de verdade (2001)

Direção: Ulisses Cohn
Elenco: Cia. Delas de Teatro

A hora da estrela (2001)

Direção: Marcus Vinicius Faustini
Elenco: Marcélia Cartaxo e outros.

A descoberta do mundo (2001)

Direção: Marco Antonio Rodrigues
Elenco: Cia. Delas de Teatro

A hora da estrela (2002)

Direção: Naum Alves de Souza
Elenco: Célia Borbes, Ester Lacava e Edgar Jordão.

A paixão segundo G. H. (2002)

Adaptação:Fauzi Arap.
Direção de Enrique Diaz
Elenco: Mariana Lima.

Amor - Uma ode ao universo feminino de Clarice Lispector (2002)

Adaptação: Marta Baião e Conceição Acioli.
Direção de Conceição Acioli.
Elenco: Marta Baião.

Água viva (2003)

Direção: Maria Pia Scognamiglio
Elenco: Susana Vieira.

Encontro com Clarice (2003)

Direção: Ítalo Rossi
Elenco: Ester Jablonski

Leituras (áudio)

Clarice Lispector - Áudio (1998)

Seleção de contos feita por Paulinho Lima. Interpretação de Aracy Balabanian; Luz da Cidade, coleção Poesia Falada.

Doze lendas brasileiras - Clarice Lispector (V. 1) (2000)

Idealização e produção de Paulinho Lima; Luz da Cidade.

Clarice Lispector - A mulher que matou os peixes (V. 4) (2000)

Idealização e produção de Paulinho Lima; Luz da Cidade.

A descoberta do mundo (2002)

Seleção de crônicas feita por Teresa Montero, interpretação de Aracy Balabanian; Luz da Cidade, Coleção Os cronistas.

La passion selon G. H. (sd)

Gravação de trechos do romance A paixão segundo G. H. pela atriz Anouk Aimée; Des Femmes, Paris.

Liens de famille (sd)

Gravação de contos do livro Laços de família por Chiara Mastroianni; Des Femmes, Paris.
Dados obtidos em livros da autora, sites da Internet, nos Cadernos de Literatura Brasileira - Instituto Moreira Salles, no “Inventário das Sombras” de José Castello e fornecidos por João Pires, amigo do Releituras.

Fonte: Releituras


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Genocídio de Ruanda

agosto 7, 2009 por Stefanie Loureiro  
Arquivado em Guerras Civis

Há 15 anos ocorreu em Ruanda um dos maiores massacres da humanidade, onde tivemos um exemplo da capacidade de destruição do ser humano.  Um episódio que o mundo assistiu de braços cruzados, sendo um mero espectador. O resultado de tudo isso foram dois filmes e cerca de um milhão de mortos.

sobreviventeRuanda foi uma colônia belga, e as etnias Tutsis e Hutus surgiram em grande medida pela divisão criada pelos colonizadores belgas baseada em critérios diversos como altura e formato do nariz. Os hutus tinham aparência física mais fraca e tinha o nariz maior e mais largo. Os tutsis apresentavam uma estatura maior e um nariz mais fino e alongado, dizem que eles tem sua origem na Etiópia. Os tutsis foram escolhidos para assumirem cargos da administração estatal, treinamento militar, acesso exclusivo à educação, uma vez que as escolas exigiam estatura mínima, visando impedir o ingresso dos hutus. Vale lembrar que os hutus estavam em maioria.

Depois de deixar o país, os colonizadores assistiram à tomada do poder pela maioria hutu, até então oprimida, sem a preocupação de refrear as tensões causadas por sua política criminosa.

Durante os anos setenta, quando Juvenal Habyarimana chegou ao poder, um grande número de países ocidentais concedeu ao país enorme crédito político, mas principalmente econômico. O auxílio externo equivalia a 22% do PIB, com rasgados elogios do Banco Mundial, apesar de Habyarimana reprimir de modo sistemático e duro os dissidentes.

O envolvimento de potências estrangeiras, e sua consequente responsabilidade, foram crescendo cada vez mais. A aceleração na direção do genocídio agravou-se em 1990. A Frente Patriótica Ruandesa (FPR), formação político-militar dos tutsis egressos do país após o fim do colonialismo, atravessou a fronteira da Uganda e iniciou a guerra civil. A França se alinhou ao governo de Habyarimana, mas para alimentar o conflito, chegaram também armas egípcias, britânicas, italianas, sul-africanas, israelenses, do Zaire e de outros países.

Ruanda tornou-se o terceiro país africano na importação de armas. Entre janeiro de 1993 e março de 1994, sobretudo graças a financiamentos franceses, adquiriu da China 581.000 machetes (sabre de artilheiro, com dois gumes), armas impróprias, mas de preço acessível. Nenhuma potência ocidental ou organismo internacional monitorou seu comércio, nem impôs proibições; assim é que, nos mercados de Ruanda, é mais fácil encontrar granadas do que frutas ou verduras.

machete

                Em 6 de abril de 1994, o presidente Habyarimana foi morto, não se sabe por quem. A guarda presidencial, parte do exército e um número enorme de esquadrões da morte, perseguiram os tutsis, conforme um plano bem elaborado. As vítimas do extermínio, segundo estimativas cautelosas, foram oitocentas mil; segundo os maiores críticos, um milhão. Dallaire reuniu outros cinqüenta mil homens, convencido que seriam suficientes para acabar com os massacres.

Mas, na manhã do dia 7 de abril, dez capacetes azuis (soldados das tropas Forças de manutenção da paz das Nações Unidas) foram mortos sob comando Dallaire e o Conselho de Segurança (da ONU) decidiu pelo retorno da maioria dos soldados da missão. Dallaire manteve quatrocentos capacetes azuis, quase todos da Tunísia e de Gana. Eles salvaram 25.000 pessoas, mas o genocídio acabou somente quando a Frente Patriótica venceu a guerra civil.

Os soldados tutsis da Frente, bem preparados e disciplinados, não economizaram represálias, ataques a órgãos civis, como hospitais e igrejas. Sua operação não tinha as intenções genocidas dos extremistas hutus, mas os crimes de guerra, pelos quais foram responsáveis, precisam ser duramente condenados.

                As potências ocidentais, ao abandonarem Ruanda a si mesma, não se cansam de justificar seu comportamento. As mensagens de Dallaire à ONU, levadas ao futuro secretário Kofi Annan, não citaram seus próprios erros, mas afirmavam ter feito todo o possível. O presidente dos Estados Unidos na época, Bill Clinton, que exigira uma intervenção internacional para evitar os massacres, desculpou-se afirmando que não sabia o que se sucedia em Ruanda.

A Bélgica pediu perdão, mas responsabilizou os próprios Capacetes Azuis por tudo. Também acusou o Vaticano e os líderes de outras religiões.

É verdade que muitos líderes da hierarquia religiosa, tanto católica, como anglicana, estavam comprometidos com o regime extremista dos hutus. Porém, naqueles meses, foram mortos 103 padres, 76 freiras e 53 irmãos consagrados.

Os únicos que não pediram desculpas foram o Governo e o parlamento francês, que também haviam sustentado os extremistas hutus, até depois da morte de Habyarimana. Comentando uma pesquisa elaborada em 1998, o parlamento de Paris admite algumas falhas, mas insiste que “ninguém fez tanto quanto a França para estancar a violência em Ruanda”.

              refugiados Um dos grandes heróis do massacre foi  Paul Rusesabagina. Paul era da etnia hutu enquanto sua mulher era da etnia tutsi. Durante os combates ele abriga sua família no hotel Les Mille Collines em Kigali, de propridade do grupo belga Sabena, onde era gerente. Com a saída dos hóspedes do hotel, Paul o abre aos refugiados, salvando assim mais de 800 pessoas. Esse seu ato rendeu ao excelente filme Hotel Ruanda.

 

 

                Nesses 15 anos ainda há vestígios do massacre, e o preconceito ainda existente. Devemos esperar para  que não acontece outro episódio como o de 1994, o mundo não precisa de mais um prova das maldades de que o Homem é capaz.

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Bedřich Smetana

agosto 1, 2009 por giovanni  
Arquivado em música

Bedřich Smetana foi um compositor checo. Sua obra mais 

Foto de Bedřich Smetana

Foto de Bedřich Smetana

 famosa  O Moldava (Vltava) do poêma sinfônico Minha Pátria (Má Vlast). Estudou piano e violino desde pequeno, e sofreu resistências da família pela opção de carreira na área da música. Estudou música em Praga e foi contratado como músico numa família de nobres. O compositor Franz Liszt, em 1848, apoiou-o para criar a sua própria escola de música.

Em Setembro de 1855, Smetana perdeu a sua filha Bedřiska, então com quatro anos de idade, perdendo outro filho nove meses depois. Deprimido, Smetana passou a dedicar-se à composição. Desta época data o seu Trio para violino, violoncelo e piano em sol menor (op. 15).

No ano seguinte, Smetana mudou-se para Gotemburgo, na Suécia, onde permaneceu até 1863. Durante esse período realizou muitos recitais e concertos. 

Estátua Bedřich Smetana em Praga

Estátua Bedřich Smetana em Praga

Bedřich, devido à tensão nervosa e à sífilis, começou a ficar surdo em Março de 1874, aos 50 anos, aquando da estreia da sua ópera As Duas Viúvas. Alguns meses depois, a 20 de Outubro de 1874, ficou afectado por surdez total. Ainda viveu 10 anos na mais completa surdez, compondo ainda muita música, tal como o poema sinfónico Minha Pátria (Má Vlast), com a parte musical mundialmente conhecida O Moldava (Vltava), em sol maior, de 1874, evocando o rio Moldava ou Vltava – afluente do rio Elba – , bem como as óperas O Beijo (1876), O Segredo (1878) e A Parede do Diabo (1882). Smetana é considerado como o pai da escola musical checa. Antonín Dvorak será o seu seguidor.

Smetana é, juntamente com Ludwig van Beethoven e Fauré, um dos compositores que escreveram música em total surdez. Faleceu em 1884 num manicómio na cidade de Praga, surdo e acometido de problemas neurológicos decorrentes de sífilis.

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Napoleão Bonaparte

julho 29, 2009 por coordenador  
Arquivado em pensamentos

Napoleão Bonaparte em seu trono imperial

“Se eu avançar sigam-me, se eu retroceder matem-me, se eu morrer, vinguem-me.”

“Uma sociedade sem religião é como um navio sem bússola.”
- “Une société sans religion est comme un vaisseau sans boussole”
Correspondance de Napoléon Ier, Napoléon Bonaparte, éd. H. Plon, J. Dumaine, 1861, t. 6, p. 339

“O amor pela pátria é a primeira virtude do homem civilizado.”
- “l’amour de la patrie est la première vertu de l’homme civilisé”
Carta ao deputado Pologne, em 22 de julho de 1812; citado em “Oeuvres de Napoléon Bonaparte”; Por Napoleon, France Empereur I. Napoléon; Publicado por C.L.F. Panckoucke, 1821; página 25

“Do sublime ao ridículo é só um passo.”
- “Du sublime au ridicule, il n’y a qu’un pas”
Citado em “The Quarterly review”; Publicado por John Murray, 1867; página 343

“Uma grande pessoa pode ser morta, mas nunca intimidada.”

“A riqueza não está na posse de tesouros, mas no uso que deles se faz.”

 

Napoleão Bonaparte

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