Genocídio de Ruanda
agosto 7, 2009 por Stefanie Loureiro
Arquivado em Guerras Civis
Há 15 anos ocorreu em Ruanda um dos maiores massacres da humanidade, onde tivemos um exemplo da capacidade de destruição do ser humano. Um episódio que o mundo assistiu de braços cruzados, sendo um mero espectador. O resultado de tudo isso foram dois filmes e cerca de um milhão de mortos.
Ruanda foi uma colônia belga, e as etnias Tutsis e Hutus surgiram em grande medida pela divisão criada pelos colonizadores belgas baseada em critérios diversos como altura e formato do nariz. Os hutus tinham aparência física mais fraca e tinha o nariz maior e mais largo. Os tutsis apresentavam uma estatura maior e um nariz mais fino e alongado, dizem que eles tem sua origem na Etiópia. Os tutsis foram escolhidos para assumirem cargos da administração estatal, treinamento militar, acesso exclusivo à educação, uma vez que as escolas exigiam estatura mínima, visando impedir o ingresso dos hutus. Vale lembrar que os hutus estavam em maioria.
Depois de deixar o país, os colonizadores assistiram à tomada do poder pela maioria hutu, até então oprimida, sem a preocupação de refrear as tensões causadas por sua política criminosa.
Durante os anos setenta, quando Juvenal Habyarimana chegou ao poder, um grande número de países ocidentais concedeu ao país enorme crédito político, mas principalmente econômico. O auxílio externo equivalia a 22% do PIB, com rasgados elogios do Banco Mundial, apesar de Habyarimana reprimir de modo sistemático e duro os dissidentes.
O envolvimento de potências estrangeiras, e sua consequente responsabilidade, foram crescendo cada vez mais. A aceleração na direção do genocídio agravou-se em 1990. A Frente Patriótica Ruandesa (FPR), formação político-militar dos tutsis egressos do país após o fim do colonialismo, atravessou a fronteira da Uganda e iniciou a guerra civil. A França se alinhou ao governo de Habyarimana, mas para alimentar o conflito, chegaram também armas egípcias, britânicas, italianas, sul-africanas, israelenses, do Zaire e de outros países.
Ruanda tornou-se o terceiro país africano na importação de armas. Entre janeiro de 1993 e março de 1994, sobretudo graças a financiamentos franceses, adquiriu da China 581.000 machetes (sabre de artilheiro, com dois gumes), armas impróprias, mas de preço acessível. Nenhuma potência ocidental ou organismo internacional monitorou seu comércio, nem impôs proibições; assim é que, nos mercados de Ruanda, é mais fácil encontrar granadas do que frutas ou verduras.

Em 6 de abril de 1994, o presidente Habyarimana foi morto, não se sabe por quem. A guarda presidencial, parte do exército e um número enorme de esquadrões da morte, perseguiram os tutsis, conforme um plano bem elaborado. As vítimas do extermínio, segundo estimativas cautelosas, foram oitocentas mil; segundo os maiores críticos, um milhão. Dallaire reuniu outros cinqüenta mil homens, convencido que seriam suficientes para acabar com os massacres.
Mas, na manhã do dia 7 de abril, dez capacetes azuis (soldados das tropas Forças de manutenção da paz das Nações Unidas) foram mortos sob comando Dallaire e o Conselho de Segurança (da ONU) decidiu pelo retorno da maioria dos soldados da missão. Dallaire manteve quatrocentos capacetes azuis, quase todos da Tunísia e de Gana. Eles salvaram 25.000 pessoas, mas o genocídio acabou somente quando a Frente Patriótica venceu a guerra civil.
Os soldados tutsis da Frente, bem preparados e disciplinados, não economizaram represálias, ataques a órgãos civis, como hospitais e igrejas. Sua operação não tinha as intenções genocidas dos extremistas hutus, mas os crimes de guerra, pelos quais foram responsáveis, precisam ser duramente condenados.
As potências ocidentais, ao abandonarem Ruanda a si mesma, não se cansam de justificar seu comportamento. As mensagens de Dallaire à ONU, levadas ao futuro secretário Kofi Annan, não citaram seus próprios erros, mas afirmavam ter feito todo o possível. O presidente dos Estados Unidos na época, Bill Clinton, que exigira uma intervenção internacional para evitar os massacres, desculpou-se afirmando que não sabia o que se sucedia em Ruanda.
A Bélgica pediu perdão, mas responsabilizou os próprios Capacetes Azuis por tudo. Também acusou o Vaticano e os líderes de outras religiões.
É verdade que muitos líderes da hierarquia religiosa, tanto católica, como anglicana, estavam comprometidos com o regime extremista dos hutus. Porém, naqueles meses, foram mortos 103 padres, 76 freiras e 53 irmãos consagrados.
Os únicos que não pediram desculpas foram o Governo e o parlamento francês, que também haviam sustentado os extremistas hutus, até depois da morte de Habyarimana. Comentando uma pesquisa elaborada em 1998, o parlamento de Paris admite algumas falhas, mas insiste que “ninguém fez tanto quanto a França para estancar a violência em Ruanda”.
Um dos grandes heróis do massacre foi Paul Rusesabagina. Paul era da etnia hutu enquanto sua mulher era da etnia tutsi. Durante os combates ele abriga sua família no hotel Les Mille Collines em Kigali, de propridade do grupo belga Sabena, onde era gerente. Com a saída dos hóspedes do hotel, Paul o abre aos refugiados, salvando assim mais de 800 pessoas. Esse seu ato rendeu ao excelente filme Hotel Ruanda.
Nesses 15 anos ainda há vestígios do massacre, e o preconceito ainda existente. Devemos esperar para que não acontece outro episódio como o de 1994, o mundo não precisa de mais um prova das maldades de que o Homem é capaz.
















